Resenha: Páginas que não li

Livro de estreia do escritor A. J. Marchi, e editado pela Tripous Edições, Páginas que não li é uma história que causa desconforto. O romance se passa numa cidadezinha do interior de Santa Catarina, em meados de 1960, quando mal havia eletricidade em muitos lugares do país, as pessoas eram exploradas por grandes multinacionais que sugavam até os últimos recursos da natureza e não havia recursos de saúde para tratar diversas doenças. Na verdade, fico pensando se essa história não poderia se passar nos dias atuais… Demorei alguns dias para ler porque não era um assunto exatamente agradável de devorar, era meio indigesto, e acho que era proposital.

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Pedro Kobis é o protagonista, analfabeto, pobre, vai para uma área urbana em busca de trabalho em uma madeireira. Lá, Pedro se casa com a empregada doméstica de seus patrões. Maria, a esposa, tem problemas durante a gravidez que a deixam cega. O casal não tinha dinheiro para comprar remédios, e os melhores hospitais eram muito longe. Como desgraça pouca é bobagem, como consequência da diabetes que deixou Maria nessa condição, a filha Clara nasce com problemas de surdez.

É um livro que trata um pouco da inclusão de deficientes visuais, mas principalmente da inclusão social de pessoas nascidas surdas. As dificuldades de Clara para se comunicar, principalmente com a mãe cega, as dificuldades de uma família desgraçada para lidar com a situação, as tentativas de educar uma criança diferente numa escola comum, os estudos ainda iniciais sobre esse tipo de educação… boa parte do contexto é explicada no epílogo.

O título Páginas que não li se refere ao analfabetismo de Pedro, que vai ser crucial para o desfecho da história dessa família. Além de outras desavenças que ocorrem ao longo da história, Pedro começa a abusar do álcool e abandona sua esposa e filha aos seus próprios cuidados (e aos dos vizinhos e patrões solidários). Não considero Pedro o culpado pelo desfecho trágico. Talvez tenha sido um fator que contribuiu muito, mas tantos outros fatores também fazem o copo transbordar.

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O texto é bem escrito, a linguagem chega a ser um pouco formal para aquela camada social, tanto que me perguntei muitas vezes como o narrador-protagonista teria se alfabetizado para contar sua história daquela forma. E isso é explicado, uma pena que tenha sido uma explicação bem breve. Gostaria de saber mais sobre o novo Pedro Kobis, como superou seus problemas, como chegou onde chegou. Talvez seja um final “feliz” demais.

A edição da Tripous é linda, bem feita, com ilustrações. A diagramação é bonita e arejada. A fonte é verde, o que achei inusitado, mas não compromete em nada o contraste com a página e não atrapalha a leitura, achei que casou bem. A imagem da capa são duas mãos tentando se tocar – ou se afastando, depende da leitura que você fizer. Acho importante as editoras regionais que têm menos recursos se profissionalizarem para fazer um livro atraente à primeira vista, coisa rara de ver por aqui. É um diferencial muito positivo!

Título: Páginas que não li
Autora: A. J. Marchi
Ano: 2017
Páginas: 132

Nota: 8

Fotos: divulgação/Tripous

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Resenha: O Silêncio do Olhar

Terceiro livro da autora catarinense Katia Rebello que leio, O Silêncio do Olhar foi um dos poucos neste ano que consegui ler de uma sentada (deve ter sido o único…). A escrita da Katia é fluida e gostosa de ler, simples, sem firulas, e mesmo assim prende o leitor. Lançado pela editora Papa-Livro em 2011, a produção foi a parte prática da tese de doutorado da Katia em Literatura na UFSC, em 2007. No trabalho teórico ela conta passo a passo do processo de produção de um romance, e o produto final foi esse livro. Divino, né?

O Silêncio do Olhar conta a história de Anita, ou Pipa, apelido dado pelo namorado Fábio. Anita é vendedora de perfumes franceses, Fábio é poeta, ou ao menos almeja ser. Ela não entende por que seu namorado, com quem está há mais de um ano, tem tanta dificuldade em declarar seus sentimentos por ela, mesmo que ela insista. Anita tem ciúmes da Poesia de Fábio, essa amante a quem ele se abre e conta todos os seus sentimentos.

IMG_20170830_102419177~2Fábio se corresponde com Solano, poeta já consagrado, e envia a ele seus poemas, pois ele poderia intermediar seu contato com editores para publicar os textos. Anita não se conforma em como ele é capaz de enviar as poesias a um estranho, mas não consegue mostrá-las a ela, que supostamente é o assunto de tais poemas! Furiosa e curiosa, ela decide tirar uns dias de férias e ir atrás do poeta Solano.

Katia traz uma reflexão interessante sobre o modo como imaginamos profissionais de certas áreas… como é um poeta? Como ele se comporta? São todos iguais? Fábio parece um poeta saído do Romantismo: ele sofre, é apático, pálido, taciturno, solitário. Já Solano…

“Na aparência, ninguém adivinharia que era poeta. Alguém suspeitaria que eu vendia perfumes, só de olhar? Somos o que fazemos e blá blá blá… mas precisamos nos parecer com nosso ofício?”

Solano fazia piadas, era alegre, bronzeado, rodeado de amigos, vivia na praia e se misturava aos pescadores. A maior parte do romance se desenrola na vila à beira-mar onde mora Solano e na Pousada onde Anita se hospeda, por isso a foto de capa de uma praia e suas ondas.

O livro é narrado pela Própria Anita, em primeira pessoa. O tom é bastante coloquial, o que torna a narrativa natural, com construções de pensamento que qualquer pessoa comum poderia ter. Com essa transparência temos acesso às sensações, dúvidas, raivas, receios da protagonista, como se ela fosse “gente como a gente”.

“Não comparamos como os homens agem, comparamos como eles nos tratam. Todos querem sentir prazer, nem todos o querem dar.”

Anita descobre que as palavras têm poder, mas o silêncio também o tem. E que um olhar pode dizer muito mais do que qualquer palavra pode expressar.

Gostou? Fique atento, vai ter sorteio de um exemplar autografado pela autora 😀

Se quiser conhecer outro título publicado pela Katia, aqui tem a resenha do Até que a Morte os Separe, lançado em 2016.

Título: O Silêncio do Olhar
Autora: Katia Rebello
Ano: 2011
Páginas: 178

Nota: 10

 

Resenha: Lilás, lançamento de Fê Friederick Jhones

Lilás é uma garota bastante espontânea, sincera, que faz e fala o que dá na telha. Ela conhece Antônio, um cara que poderia ser qualquer um no meio de uma multidão. O encontro dos dois acontece num restaurante, um não sabe nada sobre o outro. Fiquei me perguntando se a cena não aconteceria numa espécie de speed-dating. 

“Tenho um aneurisma no meu cérebro. Sou uma bomba ambulante e posso morrer neste exato segundo”

É assim que Lilás inicia o diálogo com Antônio. Como qualquer um faria, ele leva um susto e não sabe como lidar com aquela informação: seria verdade? Seria piada? Quem é essa louca?

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Capa do conto Lilás, da Fê Friederick Jhones

Como podemos imaginar, Lilás invade a vida de Antônio e o arrebata. Mas acima de tudo ela o ensina – e nos ensina! – que temos que viver cada dia de maneira intensa, fazer o que nos dá vontade, dizer àqueles que amamos como nos sentimos e o que eles nos fazem sentir… afinal de contas, amanhã pode ser muito tarde para curtirmos quem hoje está ao nosso lado. Amanhã, podemos não estar aqui, ou mesmo as pessoas que amamos podem partir.

Confesso que derramei algumas lágrimas já pela metade do conto, quando Lilás leva Antônio a um aeroporto para observar as pessoas. Aeroportos são, de fato, os locais onde os sentimentos são mostrados em sua forma mais pura e verdadeira. Quem tem família distante, ou um amor distante, ou pessoas queridas que vão ter de se ausentar por um tempo, sabe o quanto isso é real. Doeu em mim, que tenho família longe, então me vi e me reconheci naquela cena. Aliás é por isso que evito ler romance: eu S E M P R E choro. HEHE

A escrita da Fernanda me prendeu. Os diálogos são super naturais, rápidos, e atiçam a curiosidade do leitor. Você fica se perguntando se a história vai ter um final feliz, ou um final trágico, e quer chegar logo no fim pra descobrir o que vai acontecer com esses dois!

O conto Lilás, da Fê Friederick Jhones, foi escrito em comemoração ao Dia dos Namorados e já está disponível na Amazon neste link. Se você tem Kindle Unlimited pode baixá-lo de graça, mas se não tem, ele custa R$ 2,99.

Título: Lilás
Autora: Fernanda Friederick Jhones
Ano: 2017
Páginas: 36

Nota: 10! Li super rápido, me fisgou!

O Guia do mochileiro das Galáxias

Nesse Dia da Toalha (ou Dia do Orgulho Nerd, criado em uma época que ser nerd não era cool) nada mais propício do que falar d’O Guia do Mochileiro das Galáxias. Só tem um problema: a trilogia de cinco do Douglas Adams é uma das minhas maiores decepções literárias. Mas não entre em pânico, já vou explicar.

Arthur Dent é uma pessoa comum que mora num local comum, mas num belo dia tem que impedir a prefeitura de demolir sua casa porque no local irá ser construída uma via expressa. Ao mesmo tempo em que tenta salvar sua casa, descobre que seu melhor amigo, Ford Prefect, é um alienígena, e enquanto isso os vogons tentam destruir a Terra para… adivinha? Construir uma via expressa hiperespacial! Ford pede carona com seu sinalizador subeta e os dois embarcam na nave vogon para incríveis aventuras como já diria um anúncio de sessão da tarde.

Parece legal, né? Sim, e o primeiro volume da série é legal mesmo, bem engraçado e tem umas sacadas geniais. Só que como tem uma continuação, a coisa começou a desandar. O  segundo volume da série é O Restaurante no fim do Universo, e apesar de já não manter o ritmo do primeiro ainda empolga um pouco. A vida, o universo e tudo mais, terceiro título, é bem mais arrastado e em algum momento as piadas e a história que não vai a lugar nenhum começam a cansar. O autor saiu demais da linha central da história e isso me deixou de saco cheio. Pior livro da série, sem dúvida.

colecao guia do mochileiro

No penúltimo volume, Até mais e obrigado pelos peixes, o Douglas Adams resgata alguns elementos anteriores e parece que as coisas vão tomar um rumo… mas no  considerado último, Praticamente Inofensiva, ele abre ainda mais a história e dá uma resolução bem porca pro fechamento da série. Também, escrito meio forçado 13 anos depois do lançamento do primeiro (em 1979)… muita gente nem considera que seja o fim da série, e daí não sei o que é pior: uma série sem final ou um final mal explicado.

Já sei que vão dizer que é porque não entendo o Douglas Adams, ou que eu “li errado” o livro, ou qualquer coisa assim. Não, só não me cativou porque eu criei uma super expectativa. Todo mundo falava que era maravilhoso, mas a minha definição de maravilhoso é bem diferente.

Alguns elementos dessa história pirada se tornaram ícones, como a tal da toalha (um item ESSENCIAL para qualquer mochileiro, que tem as mais variadas e estranhas utilidades), uma bebida chamada dinamite pangalática, o peixe-babel (que você coloca no ouvido e pode entender qualquer língua de qualquer raça no universo), o robô melancólico e depressivo Marvin,  o próprio Guia do Mochileiro das Galáxias, com seu alerta em letras amigáveis na capa NÃO ENTRE EM PÂNICO, e é claro o número 42 que é a resposta para a grande pergunta sobre a vida, o universo e tudo mais.

“O Guia do Mochileiro das Galáxias faz algumas afirmações a respeito das toalhas. Segundo ele, a toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido ao seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kabrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você – estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.”

O Guia do Mochileiro das Galáxias – Douglas Adams

Meu comentário sobre a série aqui é bem breve porque eu li há dois anos, então não lembro detalhes. Só lembro que quis criar esse blog pra falar com sinceridade sobre os livros que eu li, já que muitas resenhas nunca contemplavam o que eu achava sobre uma obra. Obviamente eu acabei deixando de lado a resenha da série hehe

Série O Guia do Mochileiro das Galáxias (5 volumes)
Autor: Douglas Adams
Editora: Arqueiro
Ano: 2004

Resenha: A Bandeira do Elefante e da Arara

Você consegue imaginar uma saga ambientada no Brasil Colonial com personagens mágicos do folclore brasileiro? Saci-Pererê, Iara, Curupira e Mula sem Cabeça nos são bastante conhecidos e aparecem no livro A Bandeira do Elefante e da Arara, do autor Christopher Kastensmidt. Mas além desses aparecem diversos outros nem tão conhecidos como a Flor-do-Mato e o Pai-do-Mato, e alguns quase desconhecidos (ou desconhecidos em certas regiões do país) como o Capelobo, o Labatut, o Mapinguari e o Corpo-Seco. O maior mérito do autor é inserir todos esses personagens numa história épica, tirando-os da ambientação infantil que é praticamente nossa única referência em folclore (oi, Monteiro Lobato).

a-bandeira-do-elefante-e-da-araraOs protagonistas da saga são o holandês Gerard van Oost e o africano Oludara, que chegou ao Brasil num navio negreiro e teve sua liberdade comprada por Gerard  para acompanhá-lo em aventuras pelo Brasil. Em seu caminho eles encontram portugueses, franceses, tribos Tupinambás e Goitacás, diversas criaturas mágicas brasileiras e feras legendárias que eles ajudam a combater. Por onde passa, a dupla faz amigos e inúmeros inimigos.

Fiquei bastante admirada com a construção da história, que me lembrou um pouco da rapsódia de Macunaíma, do Mario de Andrade, tanto pela temática do folclore brasileiro, como pela andança dos personagens pelo país. Outra característica é a tentativa de mostrar a identidade nacional com toda a mistura de cores, culturas e religiões:

“Viaje por esta Terra de um lado até o outro, e não encontrará duas pessoas iguais” – Oludara

Todos os personagens que aparecem têm alguma forma de preconceito. Oludara o tempo todo é tratado como escravo, e Gerard precisa frisar o tempo todo que Oludara é um homem livre; Gerard tem preconceitos contra o que ele chama de magia pagã; por sua vez, Oludara não entende as religiões cristãs e suas restrições; os padres católicos têm preconceito religioso para com Gerard, que é protestante, e o tratam como se estivesse condenado ao inferno. Apesar disso, na maior parte das vezes eles omitem suas opiniões e conseguem aceitar o outro para conviver em paz. Pois não é assim que deveria ser, num país com tanta miscigenação? Nessas questões também é visível a evolução dos personagens, principalmente pela convivência com a diversidade.

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Ilustração de Gerard e Oudara, feita por Sula Moon

É claro que, como em toda saga, não tem só aventuras, mas também um pouco da cultura e da sabedoria de cada povo que se propõe a apresentar, trazendo lições que podem ser úteis para os leitores e até mesmo tocantes. O livro tem passagens engraçadas, mas também mortes tristes, e em muitos momentos fiquei apreensiva pela vida de outros personagens que corriam perigo.

O livro A Bandeira do Elefante e da Arara reúne dez histórias da dupla Gerard e Oludara. Algumas delas já haviam sido publicadas separadamente e editadas em quadrinhos. Alguns dos contos venceram prêmios mundo afora, tendo sido publicados primeiro em inglês e traduzidos para outros idiomas, além de comercializados em diversos países, como Holanda, Romênia e República Tcheca. Em outubro do ano passado, logo que meu exemplar veio na Nerd Loot, fiz uma entrevista com o Christohper Kastensmidt, que você pode ler aqui se quiser saber mais sobre como esse gringo se interessou tanto pela cultura brasileira. 😉

Ficha Técnica

Título: A Bandeira do Elefante e da Arara – Christopher Kastensmidt
Ano: 2016
Páginas: 326
Editora Devir
ISBN: 9788575326374

Nota: 10, me conquistou!