Entrevista: Gustavo Lopes, autor de O Inominável

Gustavo Lopes tem 28 anos e é autor do livro digital O Inominável, lançado neste ano e que tem conquistado leitores nas plataformas Wattpad (onde já teve mil leituras)  e Luvbook (com 500 visualizações). Fã de Stephen King, J.K Rowling, André Vianco, Rô Mierling e Lovecraft, sempre gostou de inventar histórias, mas foi com o rascunho de seu primeiro livro, entre 2006 e 2007, que a escrita foi se tornando cada vez uma atividade mais atraente a ele, até fazer parte de sua rotina. Gustavo é natural de Suzano (SP) e reside no ABC paulista minha terra, diga-se de passagem.

o-inominc3a1vel-por-gustavo-lopesO Inominável conta a história de quatro amigos, estudantes do ensino médio, que encontram um livro, jamais visto até então na biblioteca de sua escola, e resolvem provar a veracidade de seu conteúdo, instruções para um ritual aparentemente inofensivo e extremamente tentador. Motivados por um histórico de bullying e a promessa de um fim definitivo para os seus problemas, Andreia, Augusto “Bolinha”, Davi e Thalita partem em uma jornada sem retorno, rumo à escuridão inominável que habita em seus corações. A história é narrada na primeira pessoa, sob o ponto de vista de Thalita.

 

Literatismos A Thalita é uma menina, adolescente. Quais os desafios de entrar na mente de uma pessoa de outro gênero e de uma idade diferente da sua para construir o personagem e contar em primeira pessoa?
Gustavo Lopes – O principal desafio em estar na pele de um personagem e contar sua história em primeira pessoa é se desligar da sua própria personalidade, linha de raciocínio, jeito de falar e escrever, para dar lugar a outra pessoa. Para que isso funcione, o personagem precisa ser bem construído antes da primeira linha de narrativa, ou provavelmente as incoerências vão aparecer, seja nos diálogos ou na forma de narrar. O desafio na construção da Thalita foi além de composição da personagem e do processo de separação da minha personalidade com a dela na hora de escrever. Tive que voltar mais de 10 anos para relembrar minha época de colégio e ao mesmo tempo encaixar aquela época no contexto atual.Por sorte o mundo mudou em 10 anos, mas as pessoas não. Recebi muitas respostas de pessoas que se identificaram com a Thalita e isso foi muito positivo para mim, praticamente uma tacada de sorte.

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Literatismos – Como foi o processo de elaborar o texto, desde a ideia até começar a botar tudo no papel (ou na tela)? 
Gustavo – O meu processo de desenvolvimento acaba sendo uma eterna luta entre ordem e caos, e no caso d’O Inominável não foi diferente. Eu planejo o começo e o fim da história, alguns pontos principais, uma linha do tempo, os personagens, elementos do meu universo pessoal, e quando sento para escrever e a história passa a ser “real”, as coisas saem dos trilhos, pois nem sempre o que planejei acontece. Pode parecer insano, mas quando uma história se concretiza na minha mente, ela se torna uma verdade para mim, como se fosse uma sequência de memórias, e eu apenas registro o que está acontecendo ou aconteceu. É um negócio muito louco, principalmente quando decido me colocar na pele de um personagem para narrar, como no caso d’O Inominável. Algumas memórias permaneceram vívidas em minha mente. Enquanto escrevia, eu vi e senti o que a Thalita viu e sentiu. Isso ajuda bastante no processo de elaboração do texto, mas dependendo do teor da história, é bastante desgastante, e algumas memórias são de tirar o sono (risos)…

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Literatismos – Você diz ter outros projetos inacabados. Qual a diferença entre O Inominável e outras ideias que você já iniciou e não concluiu? Pretende voltar a elas em algum momento?
Gustavo – Diferente dos outros livros que já escrevi, O Inominável nasceu com o intuito de ser uma novela e não um romance. Além disso, não houve um período para o texto “descansar” entre a primeira versão, que eu costumo chamar de rascunho, e a versão final, e as revisões foram feitas na sequência até o texto estar pronto, processo que geralmente faço quando escrevo contos. Apesar de todos os meus projetos orbitarem ao redor de um mesmo universo, cada um foi gerado a partir de uma premissa diferente. No caso d’O Inominável, essa premissa foi o bullying. Também há muitas diferenças no processo de escrita, mas é difícil falar sobre este ponto sem dar “spoilers”. Entre os projetos inacabados tenho desde romances que estão em revisão até ideias que ainda estão no argumento. Não apenas pretendo voltar a estes projetos, mas tenho intenção de finalizar todos eles.

Gustavo Lopes também escreve contos nos portais Noite do Bardo  e Maldohorror , e já participou de seis antologias, entre elas Mundo Invertido (Editora Wish), Insanidade (Editora Skull) e Sete Pecados Capitais – volume II  (Editora Illuminare).

 

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Autores independentes na FLIP

Seu Paulo Cavalcante saiu lá de Campina Grande, na Paraíba, para expor na Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Ele participa do evento há 13 anos, mas nunca foi como convidado. Ele sabe que a FLIP é uma vitrine, e que o público das estrelas convidadas é o mesmo que o seu: leitores. “Quem se propõe a estar na literatura, tem que estar na FLIP. Por isso que tem centenas de nós na pipoca”, comenta rindo.

paulo cavalcante

Seu Paulo estava todos os dias da Feira debaixo de sol, vestindo acessórios que remetem ao sertão nordestino, tema de seus três livros publicados. Martírio dos viventes foi seu primeiro livro e já está na sexta edição, todas pela Editora da UFPB (Universidade Federal da Paraíba). Sujeito simples, não tirou o sorriso do rosto nem um minuto durante nossa conversa, mesmo passando cinco dias inteiros em pé sobre dois tocos de madeira que o faziam sobressair à multidão. Pelo jeito a persistência valeu a pena, conseguiu vender todos os 150 exemplares que levou a Paraty de Um Andarilho em Busca de Cultura (de 2016, o mais recente). Seu outro título é Como se fosse um paraíso, de 2012.

O romance realista Martírio dos Viventes fala sobre a seca de 1992 na região de Garanhuns, cidade natal de Paulo, e conta a resistência e a exclusão social de uma família que tem 12 filhos. O texto é acompanhado de ilustrações feitas pelo próprio autor. É praticamente um livro paradidático, que podemos comparar com Vidas Secas, do genial Graciliano Ramos. Restavam uns 30 exemplares com o autor ao final da feira.

Mulheres em Cena

lara braga - mulheres em cenaAs irmãs Nara Tosta e Lara Braga (foto) vieram da capital do Rio de Janeiro para expor seu projeto Mulheres em cena. Nara escreve contos, Lara é poeta, e ambas falam de questões da mulher.

Lara conta que elas decidiram escrever quando chegaram à famosa crise de meia idade. “A gente já tinha feito várias coisas na vida e não se encontrava. Eu tive um filho que teve câncer, e nesse processo a gente ficou muito recolhido. Depois dessas viagens internas, aos poucos eu minha irmã fomos descobrindo o que temos como essência para colocar pra fora”, conta a autora.

Elas escrevem há mais ou menos cinco anos e têm prontos diversos textos. A ideia de Nara é publicar cinco livros, com dois contos em cada. Detalhe: todos os títulos são nomes femininos e contam as histórias das protagonistas que dão nome aos textos. Lara deve publicar mais quatro livros de poesia, fechando a coleção, com dez volumes. Os dois primeiros livros do projeto Mulheres em cena haviam acabado de sair do forno e já ganhavam as ruas de Paraty nas cestinhas das bicicletas que Lara e a filha de Nara levavam.

 

Catarinense marca presença

Como não poderia deixar de ser, Santa Catarina também teve uma representante entre os escritores independentes. A advogada Luciana Bertoldo, autora do livro Baioneta Calada, esteve na FLIP divulgando seu livro. Ela conta que visitou escolas da região, num “trabalho de formiguinha” para falar da obra que tem sido utilizada por colégios do Rio Grande do Sul para apoiar os estudos sobre o período da Ditadura Militar. luciana bertoldo flip 2

No livro, Luciana conta a história de seu pai, que foi preso durante o período da Ditadura, e fala sobre como isso afetou toda a família. O simples fato de ser operário e lutar por direitos trouxe a ele o estigma de “preso político” e “comunista”. O convívio com a sociedade foi bastante afetado, não apenas de seu pai, mas de todos, que sofreram perseguições por anos a fio, além da exclusão.

Escritores independentes têm essa proximidade carinhosa com o público. Algumas das estrelas da FLIP e de outras feiras também têm, outras não têm. Manter a humildade e o carisma com os leitores, atender bem o público, pelo menos pra mim, são fatores importantes. 😉

FLIP 2017 – Explorando o terreno e abertura

Ontem, dia 26 de julho, foi o primeiro dia da 15a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). A abertura oficial aconteceu às 19h, mas durante todo o dia os leitores e turistas já puderam curtir exposições, a programação das Casas e feiras de livros.

O cenário da FLIP é o Centro Histórico de Paraty, e o palco principal é a Igreja Matriz, onde foi montado um auditório com acesso somente a público pagante. No entanto, as mesas deste auditório serão transmitidas em telão no auditório montado na Praça da Matriz, que tem acesso gratuito.

Sete Casas parceiras da FLIP oferecem palestras, mesas-redondas e oficinas durante os cinco dias de evento, numa programação paralela à principal.

Museu da Língua Portuguesa

Confesso que me emocionei com a exposição voltada à reconstrução do Museu da Língua Portuguesa (de São Paulo), que sofreu um incêndio em 2015 e está desativado para reforma. A Casa de Cultura traz uma “réplica” da Praça da Língua, um dos setores que eu mais gostava no Museu: com projeções de trechos de poemas famosos da Língua Portuguesa, música, imagens. Além da Praça, uma exposição fotográfica mostra as etapas da reforma do Museu.

 

Praça da Matriz

Na área da Igreja Matriz tem a tenda da Central Flipinha, voltada para o público infantil. Lá devem acontecer cortejos literários, contação de histórias e bate-papo com autores. Ao ar livre foram colocados tapetes enormes com almofadas, perto dos “pés de livro”, árvores com livros pendurados para apreciação do público.

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Abertura

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Auditório da Praça lotado para assistir a sessão de abertura no telão. Na tela, Lilia Schwarcz.

O escritor homenageado nesta edição da FLIP é o Lima Barreto (1881-1922), e a sessão de abertura foi comandada pela historiadora Lilia Schwarcz, que acaba de lançar uma biografia do autor, Lima Barreto: triste visionário. O ator e escritor Lázaro Ramos (homão da porra!) fez uma leitura dramática de cartas e memórias de Lima Barreto. Ele lança nesta FLIP seu livro Na minha pele, com memórias em torno do racismo.

 

Nada é perfeito

A primeira coisa que senti falta: resposta no pedido de credenciamento. Sim, eu tentei e não tive resposta. Também não há uma central de informações e o staff da FLIP não necessariamente sabe passar informações corretas sobre programação e locais.

Tem poucas livrarias, e os preços são normais, se não mais salgados do que no mercado convencional. A chance de eu não levar absolutamente nada é bem grande. E, por último… cadê marcadores gratuitos? Ou pra vender? Não vi. Vem um marcador da FLIP no livreto da programação, mas só. A FLIP 2017 vai até domingo, dia 30.

 

Antonio Candido e uma infeliz coincidência

Na quarta-feira passada, dia 10, na aula de Introdução aos Estudos da Narrativa, discutimos em sala de aula sobre o texto “A personagem do romance”, do Antonio Cândido. Um ícone da crítica literária brasileira e da sociologia, e que fez parte de uma leva de intelectuais brasileiros, ao lado de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Carlos Drummond de Andrade. Dois dias depois, o homem faleceu, aos 98 anos.

“Sou provavelmente o último amigo vivo de Oswald de Andrade”

Antonio Candido, na FLIP, em 2011

Contribuições à literatura

A carreira de crítico literário começou na Folha da Manhã (que se tornaria Folha de São Paulo) em 1943. Também fundou a revista literária Clima, que circulou em meados dos anos 40. Foi militante político durante a Ditadura Militar e pediu o fim da censura no Manifesto dos Intelectuais, de 1977. Chegou a fazer críticas positivas sobre as estreias de autores célebres como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa.

Além das análises, um de seus textos mais famosos é O direito à literatura, no qual defende que a literatura é um dos direitos fundamentais do ser humano, assim como a saúde, a educação, a moradia e a alimentação. Ele defendia a popularização da literatura e o acesso dela a camadas sociais menos privilegiadas, pois acreditava que a literatura tinha um papel humanizador e de difusão de conhecimento. Hoje essa ideia pode ser meio óbvia, mas e em 1988, quando foi escrito?

Antonio Candido
Antonio Candido. Foto de Walter Craveiro

Foi ganhador de grandes prêmios da literatura nacional, como Jabuti (1960, 1965, 1966, 1993) e Machado de Assis (1993), entre outros. internacionais, como o Prêmio Camões (1998), de Portugal, e o Alfonso Reyes(2005), do México.

Suas maiores obras são Formação da literatura brasileira, de 1959, Literatura e sociedade, de 1965, e as coletâneas de ensaios como Brigada Ligeira, de 1945.

A personagem do romance

A discussão central é sobre a existência do personagem atrelada ao enredo. Sem personagem não tem enredo, e sem enredo não tem personagem. Mas ele não é o essencial do romance: a construção estrutural é que é o maior responsável pela eficácia de um romance.

Graças aos recursos de caracterização, o romancista pode nos passar a impressão de que o personagem é um ser ilimitado e contraditório, assim como um apessoa na vida real, no entanto, os personagens são menos livres para serem contraditórios, já que a narrativa é obrigada a ser coerente para convencer o leitor.

“Na vida, a visão fragmentária é imanente à nossa própria experiência; é uma condição que não estabelecemos, mas a que nos submetemos. No romance, ela é criada, é estabelecida e racionalmente dirigida pelo escritor, que delimita e encerra, numa estrutura elaborada, a aventura sem fim que é, na vida, o conhecimento do outro.”

Antonio Candido, 1972

 

***romance aqui eu falo enquanto gênero literário, diferente de poesia, conto, crônica. Não estamos falando de romance romântico “água com açúcar”. Essa confusão é bem comum por causa do termos parecidos***

Escritor de Recife lança seu primeiro livro

Pégalus é um boneco de madeira que se torna humano após um pedido de seu criador. Seu objetivo na história é se fazer companhia de um velho carpinteiro, e guiá-lo, com sua amizade de um filho presente, a enxergar a natureza como uma mãe que precisa ser conservada e respeitada para que possamos salvar nosso mundo de coisas desastrosas.

Nesse ambiente mágico, após uma avalanche eles conhecem o caçador Deniel, que salva a vida do menino-boneco, e os três partem para uma nova jornada de suas vidas. O velho, o boneco e o caçador representam três gerações caminhando de mãos dadas e mostrando que uma sociedade precisa de união entre seus habitantes para que se dê o percurso da vida em seus atributos e valores.

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Walter Figueirôa. Foto cedida pelo autor. 

Esse é o enredo repleto de magia de Pégalus: o velho, um boneco e um caçador, primeiro livro publicado pelo recifense Walter Figueirôa, que começou a escrever poemas quando jovem e chegou a reuni-los em um livreto não publicado. “Notei que dentro de meus poemas a narrativa estava muito presente, e dai esse lado narrativo ficou muito aguçado em mim, me levando a querer escrever uma história”, diz o autor.

Antes de Pégalus, que levou um ano para escrever, Walter havia escrito o romance O Pintor e o Amante, que ainda não publicou e está em fase de revisão. O autor tem outras ideias que devem se tornar histórias em breve.

Com Pégalus, ele fazia um treino de descrição de uma imagem em uma rede social, agradando aos seguidores, que pediram por mais: “continuei a narrativa sem ter planos na mente, as ideias foram surgindo e meus dedos não paravam de digitar… Quando vi, o livro estava pronto”, conta Walter.

Se quiser saber como obter o livro ou conhecer mais sobre o Walter, pode entrar em contato com o autor pelo facebook. 🙂