Jornalista lança livro sobre idoso que matou a própria esposa

O último abraço será lançado na livraria Livros e Livros, em Florianópolis, na próxima segunda-feira (13), às 18h. Mais informações no evento do facebook

Em 2014, Nelson Golla, à época com 74 anos, matou sua esposa Neusa, 72, com uma bomba caseira na clínica para idosos onde ela vivia após sofrer dois AVCs e definhar a cada dia – Neusa também não suportava mais viver. A intenção dele era morrer junto da esposa com quem vivera por 54 anos e, no entanto, saiu apenas ferido. O caso foi chamado na Justiça de “Um Romeu e Julieta da terceira idade”.

o ultimo abraço vitor hugo brandalise
Divulgação/Editora Record

Em tempos nos quais se fala muito sobre feminicídio, o mote do livro O último abraço pode parecer muito estranho. Quando o fato aconteceu, o jornalista Vitor Hugo Brandalise também sentiu esse mesmo estranhamento, já que as primeiras notícias (rasas) sobre o caso diziam se tratar de um ato de amor para livrar Neusa de seu sofrimento. Vitor resolveu investigar a fundo a história, que deu origem a uma reportagem publicada na plataforma Brio e no jornal O Estado de São Paulo. Pouco mais de um ano depois, a grande reportagem retorna em formato de livro, com muito mais detalhes, transcrições de cartas e divagações do “personagem” central.

Conversei um pouco com o Vitor para saber mais sobre a produção dessa reportagem, e você pode ler agora 😉

Literatismos O que despertou seu interesse pela história do Seu Nelson e sua esposa no primeiro contato com a notícia? 
Vitor Hugo – Creio que foram as muitas perguntas ainda sem respostas. A notícia dizia que um idoso havia explodido uma bomba em um asilo, numa tentativa de se matar e matar a esposa, mas que conseguira só a metade, ele havia sobrevivido. Como ele prosseguiria, depois de um ato como esse? Que desespero viviam Nelson e Neusa para tomar essa decisão? Eles haviam, de fato, tomado a decisão juntos, numa espécie de pacto? Ele deixou uma carta em que explicava os seus motivos – o que diria nela? Por que escolhera uma bomba? Eles tinham três filhos – será que eles conseguiriam aceitar o que houve como ato de amor? Foi mesmo um ato de amor? A nota dizia ainda que eles eram casados há mais de 50 anos. Escrever sobre os extremos a que o desespero (e mesmo o amor) podem levar uma pessoa mexeu muito comigo, e mergulhei na história do casal.

Em que momento você decidiu que, mais do que uma série de reportagens, ela deveria ser registrada em formato de livro?
VH – Acho que foi logo de cara. Imaginei que além da história de um casal desesperado existiam dilemas comuns a muitas pessoas quando chegam na velhice. E eram questões complexas: a velhice solitária, a vida em um asilo, as dificuldades de encarar a decadência do corpo, o suicídio na terceira idade (média de três idosos por dia, no Brasil), e havia ainda a questão da eutanásia. Para tratar disso tudo em profundidade, a narrativa teria necessariamente de ser longa. Decidi então apurar e escrever, desde o começo, como se fosse para um livro.
contra capa o ultimo abraço
Contracapa, foto do autor

L – Como foi o contato com seu Nelson e a família? Eles se mostraram abertos a contar essa história e a deixá-lo publicar?
VH – Nunca foram fáceis. Havia sempre muita emoção nos encontros, com o seu Nelson, especialmente. Mas creio que eles, inclusive Nelson, perceberam que havia algo de extraordinário na vida do casal, e também algo de universal. Havia uma causa de fundo, uma função social forte na experiência deles. Desde os primeiros contatos, busquei tratar os acontecimentos, mesmo os mais questionáveis, com um olhar de compreensão, tentando evitar julgamentos. Creio que essa postura ajudou a criar uma relação de confiança que perdura ainda hoje.

L – Qual foi o ponto mais delicado de abordar, seja nas entrevistas ou na hora de redigir?
VH – Tentar reconstituir, por meio de depoimentos de Nelson, os últimos dias do casal juntos, especialmente o último dia, inclusive o que se passava na cabeça dele, foi muito desafiador. Havia um repórter pedindo a um homem que reconstituísse em detalhes os dias mais duros da vida dele. Nesses momentos, Nelson se esquivava, mudava de assunto, se emocionava. Era preciso, nesses momentos, alguma delicadeza para perceber até que ponto era possível ir, sem forçá-lo a falar do que não queria.

L- Depois de ter apurado, e analisando toda a história, que aspecto mais lhe chamou a atenção?
VH – Essa pergunta é difícil. Há uma fala de Nelson que me marcou bastante, em uma de nossas primeiras conversas: “Quando passa a viver com alguém, você se transforma completamente, fica enraizado, e já não tem como viver sem ela”. Enraizado, um junto do outro, uma só raiz prendendo duas pessoas a um pedaço de solo. Creio que um aspecto muito importante nesta história é como é difícil acompanhar a decaída, lenta ou rápida, de alguém com quem se conviveu uma vida inteira.

 

SERVIÇO

O que: Lançamento do livro O último abraço, de Vitor Hugo Brandalise
Quando: 13 de março, às 18h
Onde: Livraria Livros e Livros – UFSC , Florianópolis

 

 

 

 

Entrevista: Valéria Piassa Polizzi

O livro Depois daquela Viagem completa 20 anos em 2017. Bastante famoso entre adolescentes e jovens desde que foi lançado, é uma autobiografia de Valéria Piassa Polizzi, que descobriu em 1988, aos 18 anos de idade, que era portadora do vírus da AIDS. Numa época em que ter a doença era sinônimo de morte (a expectativa de vida de pacientes com HIV era de dez anos), ainda muito rara em mulheres, e havendo pouca informação a respeito, Valéria decidiu contar sua experiência e alertar os jovens sobre o uso da camisinha. Conversei brevemente com a Valéria, dá uma olhada!

Jéssica – Esse ano faz 20 anos do lançamento de Depois daquela Viagem. O que mudou nesse tempo em relação à educação sexual dos jovens e às informações sobre a AIDS?
Valéria Polizzi – A informação está chegando mais rápido, os jovens têm muito acesso à internet, por exemplo, e podem pesquisar o assunto que quiser. Algumas escolas implantaram a educação sexual contínua em seus currículos, o que é excelente. Mas infelizmente ainda não são todas. Há informação, todo mundo sabe como se contrai o HIV ou outra DST, mas não usam o preservativo. Parece que as pessoas deram uma relaxada na prevenção. Por isso nos últimos anos aumentou o número de jovens se infectando.
Como o HIV/aids é hoje tratada como uma doença crônica, as pessoas acham que é fácil encarar. O que gosto de deixar claro é que viver com qualquer doença crônica requer muitos cuidados, tratamento constante, medicação que gera efeitos colaterais…. Enfim, muito estresse, que se a gente puder prevenir, melhor.

J – Como você decidiu escrever esse depois-daquela-viagem-valerialivro e como foi o processo de colocar no papel todo o seu sentimento?
VP – Decidi escrever o Depois daquela viagem por causa da falta de informação e sensibilização da época. As pessoas achavam que quem tinha a doença era algum monstro. E que se infectar só aconteceria com promíscuos. Quis mostrar que podia acontecer com qualquer um e como era e pensava uma pessoa que vivia com o vírus.
Colocar tudo isso no papel me fez muito bem. Foi como uma catarse. E depois com o livro publicado pude dar palestras em diversas escolas e empresas desmistificando a AIDS. Saber que meu livro é adotado até hoje em escolas de todo Brasil e América Latina.

J – Por onde anda Valéria Polizzi e como ela vive hoje?
VP – Fiz muita coisa nesses vinte anos. Viajei o Brasil e o México dando palestras, me formei em jornalismo, fiz pós graduação, me casei, separei, morei na Europa por uns anos…
Ano passado me formei em instrutora de Mindfulness, que é uma técnica de meditação para promoção da saúde. Atualmente sou colaboradora do Centro Mente Aberta da UNIFESP, onde oferecemos programas gratuitos de Mindfulness aos usuários do SUS, a profissionais da saúde e policiais. Meu sonho, agora, é em breve oferecer também o programa a professores da rede pública de Santo Amaro, o bairro onde atendemos em São Paulo.

Papo sério!

Depois daquela Viagem veio parar nas minhas mãos porque o encontrei surrado e velhinho numa estante de troca de livros em uma padaria aqui de Floripa. Apesar de o livro falar principalmente para adolescentes, é importante a conscientização também na fase adulta, porque continua sendo absurda a quantidade de gente por aí que não usa e insiste em não usar preservativo! Doença não tem cara. É bom se prevenir, certo?

Ficha Técnica

Título: Depois Daquela Viagem – Valéria Piassa Polizzi
Ano: 1997
Páginas: 288
Editora: Ática

 

Foto de destaque:  Eduardo Enomoto – Portal R7

Entrevista: Christopher Kastensmidt

Radicado em Porto Alegre desde 2001, o estadunidense Christopher Kastensmidt começou sua carreira como escritor profissional em 2005. Em 2006, ele decidiu ambientar histórias de fantasia no Brasil, e o resultado foi a série A Bandeira do Elefante da Arara, que se passa em Salvador, no período colonial.

A primeira noveleta da saga, O Encontro Fortuito, foi publicada em abril de 2010, na revista norte-americana Realms of Fantasy, e venceu o prêmio de melhor história do ano escolhida pelos leitores. O conto também também foi finalista do Prêmio Nebula no mesmo ano.

Christopher trabalhou como desenvolvedor de games até 2009 e hoje escreve, dá aulas e  faz palestras sobre narrativas, games, letramento digital e criatividade. Ele é um dos organizadores do evento anual Odisseia de Literatura Fantástica. Suas obras já foram publicadas em 12 países e também ganharam versão em quadrinhos.

a-bandeira-do-elefante-e-da-araraRecebi um exemplar do livro A Bandeira do Elefante da Arara, que reúne dez contos da série, na minha NerdLoot e fiquei curiosa sobre a história e sobre o autor. Confere aí a nossa entrevista!

Jéssica TrombiniComo despertou seu interesse pela cultura fantástica brasileira?
Christopher Kastensmidt – No ano 2000, o meu antigo estúdio de games (a Southlogic Studios) começou um projeto ambientado na Floresta Amazônica. Para dar mais profundidade ao mundo do jogo, um dos meus sócios recomendou colocar um elemento fantástico, baseado no folclore da região. Li vários livros sobre o folclore indígena e do Brasil em geral. Fiquei fascinado com a riqueza da mitologia nacional. Nunca terminamos o projeto, mas tudo aquilo ficou na cabeça para depois.

JT- Como surgiu a ideia para a série A Bandeira do Elefante da Arara?
CK – Muitas das minhas primeiras leituras em português, quando conheci o país e comecei a estudar o idioma no final dos anos 90, foram livros de história. Quase uma década depois, em 2006, uma época em que eu estava produzindo muitos contos para o mercado norte-americano, tive a ideia de escrever uma fantasia ambientada no Brasil.
Das minhas leituras anteriores, achei o século XVI o período mais interessante para este tipo de história, uma época em que eu poderia trazer um protagonista estrangeiro para conhecer este território vasto e desconhecido. Também, é uma época com uma convergência cultural muito forte, com europeus, africanos e indígenas de dezenas de nações diferentes interagindo ao longo do litoral. Material nunca falta para acrescentar histórias novas a este mundo.

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Logotipo oficial A Bandeira do Elefante e da Arara. Ilustrador: Leonardo Amora

JT- O que representam o elefante e a arara na sua obra?
CK – A arara é o Brasil, é o Mundo Novo, é toda a magia e possibilidade infinita que o viajante podia sonhar nesta terra desconhecida no século XVI. É o país que o Gerard van Oost, o primeiro protagonista, escolhe como lar, e por isso, é a representação dele. O elefante representa a África e a importância da sua cultura na formação da cultura brasileira. Ao mesmo tempo, representa o segundo protagonista, Oludara, e seu lar, sua promessa de voltar lá algum dia. Estes dois animais figuram na primeira história da dupla, sua “história de origem”, e viram dois elementos simbólicos na bandeira das personagens.

JT- A saga deve ter uma continuação?
CK – Vai ter continuação, sim, mas não vai sair tão cedo. O primeiro livro é muito bem fechado, conta uma história completa, mas na última página dá um teaser do que vai acontecer no próximo arco. Sem dar spoilers, este segundo arco vai demorar para ser escrito, pela complexidade do ambiente. Provavelmente, vou lançando algumas histórias individuais aos poucos (como está acontecendo com estas primeiras histórias atualmente em inglês e chinês).
Porém, isso não quer dizer que não vai ter outro conteúdo durante este tempo, vai ter bastante para outras mídias. Um jogo de tabuleiro inspirado no livro vai sair até o final do ano pela Devir Livraria (a mesma editora do livro), e esperamos lançar um RPG de mesa no ano que vem. A primeira história foi adaptada para um livro em quadrinhos em 2014 (lançado também pela Devir) e eu gostaria de lançar histórias inéditas em quadrinhos em algum momento também. Tenho estou trabalhando com estúdios brasileiros com projetos para um jogo digital e um desenho animado, mas estes projetos estão na fase de captação, por enquanto.

JT – Qual a importância de criar uma literatura de fantasia com elementos da cultura nacional?
CK –  Importante é apoiar a cultura nacional, não necessariamente utilizar elementos da cultura nacional na ficção. Não importa um livro ser ambientado em Roraima, na Europa medieval ou em Marte, se o autor for nacional, a obra é uma produção cultural brasileira. Isso porque o próprio autor leva toda sua bagagem cultural, toda a sua formação, na criação da obra. O olhar é sempre nacional, seja qual for o assunto.

“Não importa um livro ser ambientado em Roraima, na Europa medieval ou em Marte, se o autor for nacional, a obra é uma produção cultural brasileira.”

Há pessoas que menosprezam a produção nacional em geral, mas acho que têm uma visão distorcida do mercado. Elas julgam esta produção contra o que vem de fora, só que o produto importado já passou por um filtro muito grande: recebemos aqui o melhor 10% do que é produzido lá fora, mas estamos expostos a 100% do que é produzido aqui. Não é uma comparação justa. Até muitos conteúdos “importados” são produzidos por artistas brasileiros. Por exemplo, temos quadrinhistas nacionais criando obras para DC e Marvel. Exportamos o talento para importar a obra. A produção cultural aqui é muito forte, mas ainda temos que desenvolver o mercado.

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Ilustração de Gerard e Oudara, feita por Sula Moon

JT – Como tem sido a receptividade da obra no exterior e no Brasil? Elas são diferentes?
CK – A receptividade é bem diferente, e vem evoluindo ao longo do tempo. Quando comecei a escrever estas histórias, pensei primeiro no mercado estrangeiro, porque achei que o pessoal aqui podia achar “comum” demais uma fantasia com criaturas do folclore nacional. Ao mesmo tempo, ninguém fora do Brasil conhece as lendas brasileiras, nem o Saci (que é personagem importante no livro). Esta primeira aposta deu certo, porque a primeira história do mundo (O Encontro Fortuito) venceu o prêmio Realms of Fantasy e foi finalista do Nebula, um dos dois maiores prêmios de literatura especulativa do mundo. Teve um apelo muito forte para o leitor estrangeiro para fugir daquela fantasia medieval tão prevalente.
Porém, quando lancei a mesma obra aqui (em grande parte pela insistência do autor e editor Roberto de Sousa Causo), descobri que houve uma aceitação maior ainda, muito mais do que esperava.
Ao ler os meus livros, muitas pessoas me admitem que não aprenderam bastante sobre o folclore e história do próprio país. Fico muito contente com este tipo de comentário, porque faz valer os anos que gastei na pesquisa.
Engraçado é que, no exterior, o público dos livros é adulto, enquanto quem lê aqui são principalmente adolescentes. Os livros estão sendo adotados rapidamente nas escolas. Ano passado, palestrei em dezenas de escolas, para mais de 5.000 alunos, sobre o livro em quadrinhos. Lá fora, imagino que o leitor tenha que ser um pouco mais maduro para absorver toda esta cultura “estrangeira” que aqui faz parte do cotidiano.

“Ao ler os meus livros, muitas pessoas me admitem que não aprenderam bastante sobre o folclore e história do próprio país. Fico muito contente com este tipo de comentário, porque faz valer os anos que gastei na pesquisa.”

JT – A maior parte da literatura que traz personagens folclóricos é destinada a crianças. Como você se sente desbravando esse tipo de literatura para jovens e adultos?
CK – Quando tive a ideia de trabalhar com folclore brasileiro, perguntei sobre outros autores do gênero, e todo mundo me indicava apenas o Monteiro Lobato. Fiquei meio chocado de ver que a única referência era um autor que escrevia 100 anos atrás!
Mas, ao longo dos anos, descobri que não sou o único; há vários autores desbravando este território comigo. Para jovens leitores, recomendo Os Sóis da América da Simone Saueressig e O Legado Folclórico do Felipe Castilho. Para obras mais adultas, têm a Saga de Tajarê do Roberto de Sousa Causo, Cira e o Velho do Walter Tierno e Anhangá: A Fúria do Demônio de J. Modesto. Recomendo todos!

Se você quiser ainda mais detalhes sobre os livros do Christopher e a saga A Bandeira do Elefante e da Arara, acesse o site do autor 🙂

Foto de destaque por Ismael Fonseca.

Entrevista: Cristina Klein

Você já deve ter ouvido falar dos palhaços Patati e Patatá. Mas você sabia que umas das autoras dos livros da franquia mora em Florianópolis?

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Cristina Klein e alguns de seus livros. Foto e reprodução das capas dos livros cedidas pela autora.

Cristina Klein é de Porto Alegre e escreve desde pequena. Ela começou com minicontos sobre tudo que via, e aos dez anos de idade ganhou um concurso de redação na escola que teve como prêmio a coleção Para Gostar de Ler, que terminou de despertar sua paixão pela Literatura.

Cristina tem formação em Letras, é professora de português e inglês, estudou Jornalismo e tem pós-graduação em Educação. Já tem aproximadamente 100 títulos com publicação nacional. Há mais de 20 anos no mercado literário como revisora, tradutora e escritora, nos últimos dez se dedicou ao público infantil, com abordagem para inclusão social, ação cidadã e responsabilidade social.

Jéssica Trombini Como foi que você despertou para a escrita?
Cristina Klein – Entrei para a escola aos 6 anos. Tão logo aprendi a formar frases, comecei a construir pequenos contos. Isso não era tarefa escolar. Era uma necessidade mesmo. Qualquer coisa virava assunto: as folhas de uma árvore que faziam um barulhinho gostoso de ouvir ao serem surpreendidas pelo vento; o vestido da minha boneca; um passeio feito de carro… Depois lia para minha mãe, que sempre gostava e elogiava. Isso foi um incentivo e tanto!
Depois, os minicontos viraram contos… Ganhei um concurso de redação lá pelo 4º ano e o prêmio foram os livros da série Para Gostar de Ler. Li tudo em uma semana, degustando como se fosse comida. Li a maioria dos grandes clássicos brasileiros antes dos 13 anos. Foi nessa época que eu soube ser a literatura o caminho da minha felicidade, mas não sabia se teria a chance de segui-la como profissão.
Mas viver de literatura me soava impossível e era isso o que a maioria das pessoas pensava e pensa sobre o assunto também. Então, fui cursar Informática na faculdade e tentei Odontologia antes de perceber que o único caminho pra mim eram as Letras, do jeito que fosse, do jeito que a vida quisesse. Concluí o estudo do meu desejo, veio ainda o Jornalismo, a pós e tudo se acomodou na inconstância do meu pensamento de escritora.

trabalhando-as-diferencas_sofiaJT – A maioria dos seus livros é dedicada para o público infantil. Por que esse direcionamento e quais os desafios de desenvolver histórias para crianças?
CK – Foi muito por acaso que a literatura infantil entrou na minha vida. Tudo o que escrevi antes – roteiros de cinema, peças de teatro, contos e crônicas – foi feito para o público em geral. Mas eu também sempre soube que escrever para crianças não é tarefa simples. Os recursos textuais e visuais precisam ser pensados com muita acuidade pedagógica – eis os desafios para o livro ser sério – mesmo quando são historinhas leves e engraçadas.
Então, aconteceu o convite de uma editora onde eu trabalhava, no interior de SC, para escrever aos pequenos. Depois, uma empresa com um público mais direcionado me chamou, e assim surgiram os livros diferenciados que tenho – com muito orgulho – voltados para questões como inclusão e valores. Mas também tenho livros paradidáticos, que são aqueles que complementam o ensino formal. São dicionários de Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Minigramática.

JT – Como você virou a escritora dos livros da marca Patati e Patatá? 
CK – Sim, uma alegria para mim! Uma Editora comprou os direitos – royalties – para a escrita, impressão e distribuição de livros com a marca Patati-Patatá, cuja propriedade é da Rinaldi Produções Ltda. Eu fui chamada para escrever. As histórias versavam sobre meio ambiente, escola, família, bons hábitos, valores, amizade, amor à natureza, amor aos bichos, enfim, foram centenas de historinhas nos mais variados formatos: livros-travesseiro; com música; livros para ler antes de dormir; com a família etc, cheios de imagens registradas da dupla de palhaços em desenho. Foram quatro anos de parceria entre a Rinaldi e a Editora, de 2010 a 2014. 

365_patati_patataJT – Qual a influência, no seu trabalho, de ser a escritora oficial de uma marca tão famosa? 
CK – Isso me deu mais visibilidade e surgiram outros trabalhos. Mas, como falei, as muitas produções foram realizadas no intervalo de quatro anos. A partir de então, não há ninguém escrevendo para a marca no formato Livros, o que só pode ser feito, legalmente, mediante contrato.

JT – Você está trabalhando em algum novo lançamento? 
CK – Estou trabalhando, há dois anos e meio, numa coleção paradidática para uma editora do nordeste brasileiro. Os livros contemplam todos os anos do Ensino Fundamental. Antes desse trabalho, já escrevi um livro único, também paradidático, para a mesma empresa, versando sobre assunto diverso ao dessa coleção.

Se você quiser conhecer mais sobre o trabalho de Cristina Klein, acesse o site da escritora neste link 🙂

Entrevista: Luciana Bertoldo

Autora do livro Baioneta Calada, Luciana Bertoldo é advogada e natural de Ijuí (RS). Reside na Grande Florianópolis há 21 anos, parte deles na capital e atualmente em Santo Amaro da Imperatriz. Escreve desde a adolescência, mas manteve e mantém muitos de seus textos guardados. Ela diz que não possui uma rotina de escrita e escreve quando as ideias surgem, muitas vezes do nada.

Em seu único livro publicado ela conta a história de seu pai, Genir Bertoldo, operário em Ijuí, que foi preso durante a ditadura militar. Ele era membro de um sindicato local para crescer como pessoa e buscar melhores oportunidades, fazendo os trabalhadores terem conhecimento das injustiças praticadas contra eles, atitudes consideradas subversivas.

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Jéssica Trombini- O que te motivou a escrever sobre a história de seu pai?
Luciana Bertoldo- Essa história nunca havia sido contada, nem mesmo dentro da nossa família. Era uma coisa que trazia lembranças muitos ruins e que já tinha causado muitos danos. Mas quando meus pais me contaram, eu me interessei e tive vontade de colocar para fora. Minha mãe não era muito favorável em conta-la, mas meu pai se interessou em contar os fatos e eu gravei tudo que ele me contou.

JT – Em que momento você decidiu que transformaria a história dele em livro?
LB- Desde o primeiro momento em que eu descobri essa história decidi colocar em livro, mas não sabia como, pois não era profissional dessa área. Procurei editoras e fiz um livro independente. Também foi de uma maneira despretensiosa que o publiquei, queria apenas registrar, pois nem mesmo em Ijuí as pessoas a conheciam. Era uma história esquecida.

Nota: alguns colégios da região de Ijuí incluíram Baioneta Calada entre as obras obrigatórias aos alunos de Ensino Médio, para falar sobre a Ditadura Militar. Luciana já deu palestras sobre o livro nesses locais e em feiras literárias no Rio Grande do Sul.
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Foto: Acervo pessoal da escritora

JT- Por que é importante relatar as situações pelas quais passaram presos políticos durante a ditadura?
LB – Os presos políticos da época tiveram todo o caminho de uma vida afetada. O que aconteceu com meu pai afetou a família toda, muito convívio conosco foi evitado e muitas portas se fecharam. Ser comunista era uma coisa muito negativa. Mas na verdade não era isso, meu pai era operário e lutava por seus diretos, que só depois de muito tempo foram conquistados. A ditadura foi avassaladora e transformou a vida de todos que se envolveram nela e com ela. Ter escrito esse livro ajudou meu pai a se fortalecer e valorizar sua história, ter orgulho dela. Hoje ele diz que não faria nada diferente.

 

JT – Você pretende publicar outras obras?
LB – Sim, já estou com um bom material de crônicas, mas com um rumo totalmente diferente do primeiro livro. Esses textos são mais voltados às questões femininas e relações afetivas.