Antonio Candido e uma infeliz coincidência

Na quarta-feira passada, dia 10, na aula de Introdução aos Estudos da Narrativa, discutimos em sala de aula sobre o texto “A personagem do romance”, do Antonio Cândido. Um ícone da crítica literária brasileira e da sociologia, e que fez parte de uma leva de intelectuais brasileiros, ao lado de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Carlos Drummond de Andrade. Dois dias depois, o homem faleceu, aos 98 anos.

“Sou provavelmente o último amigo vivo de Oswald de Andrade”

Antonio Candido, na FLIP, em 2011

Contribuições à literatura

A carreira de crítico literário começou na Folha da Manhã (que se tornaria Folha de São Paulo) em 1943. Também fundou a revista literária Clima, que circulou em meados dos anos 40. Foi militante político durante a Ditadura Militar e pediu o fim da censura no Manifesto dos Intelectuais, de 1977. Chegou a fazer críticas positivas sobre as estreias de autores célebres como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa.

Além das análises, um de seus textos mais famosos é O direito à literatura, no qual defende que a literatura é um dos direitos fundamentais do ser humano, assim como a saúde, a educação, a moradia e a alimentação. Ele defendia a popularização da literatura e o acesso dela a camadas sociais menos privilegiadas, pois acreditava que a literatura tinha um papel humanizador e de difusão de conhecimento. Hoje essa ideia pode ser meio óbvia, mas e em 1988, quando foi escrito?

Antonio Candido
Antonio Candido. Foto de Walter Craveiro

Foi ganhador de grandes prêmios da literatura nacional, como Jabuti (1960, 1965, 1966, 1993) e Machado de Assis (1993), entre outros. internacionais, como o Prêmio Camões (1998), de Portugal, e o Alfonso Reyes(2005), do México.

Suas maiores obras são Formação da literatura brasileira, de 1959, Literatura e sociedade, de 1965, e as coletâneas de ensaios como Brigada Ligeira, de 1945.

A personagem do romance

A discussão central é sobre a existência do personagem atrelada ao enredo. Sem personagem não tem enredo, e sem enredo não tem personagem. Mas ele não é o essencial do romance: a construção estrutural é que é o maior responsável pela eficácia de um romance.

Graças aos recursos de caracterização, o romancista pode nos passar a impressão de que o personagem é um ser ilimitado e contraditório, assim como um apessoa na vida real, no entanto, os personagens são menos livres para serem contraditórios, já que a narrativa é obrigada a ser coerente para convencer o leitor.

“Na vida, a visão fragmentária é imanente à nossa própria experiência; é uma condição que não estabelecemos, mas a que nos submetemos. No romance, ela é criada, é estabelecida e racionalmente dirigida pelo escritor, que delimita e encerra, numa estrutura elaborada, a aventura sem fim que é, na vida, o conhecimento do outro.”

Antonio Candido, 1972

 

***romance aqui eu falo enquanto gênero literário, diferente de poesia, conto, crônica. Não estamos falando de romance romântico “água com açúcar”. Essa confusão é bem comum por causa do termos parecidos***

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