Resenha: A Bandeira do Elefante e da Arara

Você consegue imaginar uma saga ambientada no Brasil Colonial com personagens mágicos do folclore brasileiro? Saci-Pererê, Iara, Curupira e Mula sem Cabeça nos são bastante conhecidos e aparecem no livro A Bandeira do Elefante e da Arara, do autor Christopher Kastensmidt. Mas além desses aparecem diversos outros nem tão conhecidos como a Flor-do-Mato e o Pai-do-Mato, e alguns quase desconhecidos (ou desconhecidos em certas regiões do país) como o Capelobo, o Labatut, o Mapinguari e o Corpo-Seco. O maior mérito do autor é inserir todos esses personagens numa história épica, tirando-os da ambientação infantil que é praticamente nossa única referência em folclore (oi, Monteiro Lobato).

a-bandeira-do-elefante-e-da-araraOs protagonistas da saga são o holandês Gerard van Oost e o africano Oludara, que chegou ao Brasil num navio negreiro e teve sua liberdade comprada por Gerard  para acompanhá-lo em aventuras pelo Brasil. Em seu caminho eles encontram portugueses, franceses, tribos Tupinambás e Goitacás, diversas criaturas mágicas brasileiras e feras legendárias que eles ajudam a combater. Por onde passa, a dupla faz amigos e inúmeros inimigos.

Fiquei bastante admirada com a construção da história, que me lembrou um pouco da rapsódia de Macunaíma, do Mario de Andrade, tanto pela temática do folclore brasileiro, como pela andança dos personagens pelo país. Outra característica é a tentativa de mostrar a identidade nacional com toda a mistura de cores, culturas e religiões:

“Viaje por esta Terra de um lado até o outro, e não encontrará duas pessoas iguais” – Oludara

Todos os personagens que aparecem têm alguma forma de preconceito. Oludara o tempo todo é tratado como escravo, e Gerard precisa frisar o tempo todo que Oludara é um homem livre; Gerard tem preconceitos contra o que ele chama de magia pagã; por sua vez, Oludara não entende as religiões cristãs e suas restrições; os padres católicos têm preconceito religioso para com Gerard, que é protestante, e o tratam como se estivesse condenado ao inferno. Apesar disso, na maior parte das vezes eles omitem suas opiniões e conseguem aceitar o outro para conviver em paz. Pois não é assim que deveria ser, num país com tanta miscigenação? Nessas questões também é visível a evolução dos personagens, principalmente pela convivência com a diversidade.

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Ilustração de Gerard e Oudara, feita por Sula Moon

É claro que, como em toda saga, não tem só aventuras, mas também um pouco da cultura e da sabedoria de cada povo que se propõe a apresentar, trazendo lições que podem ser úteis para os leitores e até mesmo tocantes. O livro tem passagens engraçadas, mas também mortes tristes, e em muitos momentos fiquei apreensiva pela vida de outros personagens que corriam perigo.

O livro A Bandeira do Elefante e da Arara reúne dez histórias da dupla Gerard e Oludara. Algumas delas já haviam sido publicadas separadamente e editadas em quadrinhos. Alguns dos contos venceram prêmios mundo afora, tendo sido publicados primeiro em inglês e traduzidos para outros idiomas, além de comercializados em diversos países, como Holanda, Romênia e República Tcheca. Em outubro do ano passado, logo que meu exemplar veio na Nerd Loot, fiz uma entrevista com o Christohper Kastensmidt, que você pode ler aqui se quiser saber mais sobre como esse gringo se interessou tanto pela cultura brasileira. 😉

Ficha Técnica

Título: A Bandeira do Elefante e da Arara – Christopher Kastensmidt
Ano: 2016
Páginas: 326
Editora Devir
ISBN: 9788575326374

Nota: 10, me conquistou!

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Resenha: Andando Sozinho

Primeiro romance do escritor Fernando T. Moraes, natural de Itajaí (SC), Andando Sozinho acompanha o personagem Carlos Montenegro na tentativa de esclarecer as circunstâncias misteriosas que envolveram a morte de sua namorada da adolescência, Amanda Marcondes.

Carlos é visivelmente problemático, com uma tendência forte ao alcoolismo e depressão, desencadeados provavelmente pelos fatos dramáticos que ocorreram em sua vida. Ele abandona sua cidade natal, Santana, após a morte de Amanda, e depois de dez anos recebe um estranho bilhete datado de muito depois da morte dela, e assinado pela própria Amanda. Ele compara com uma última carta que ela lhe havia escrito e confirma que a letra era a mesma. Decide então voltar à minúscula cidade para tirar essa história a limpo.

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Divulgação/Fernando T. Moraes

Entre reencontros com pessoas amigas, Carlos percebe uma atmosfera estranha envolvendo a cidade, que traz também personagens muito suspeitos. Quando ele chega à cidade, a história toda do assassinato de Amanda vem à tona. Gostei bastante do uso de capítulos do tempo presente alternados com digressões do dia fatídico, e no meio das cenas cotidianas comuns vão aparecendo situações incomuns e até mesmo bem tensas. Algumas cenas são muito bem descritas, chegando a dar desconforto. Como escritor de suspense, Fernando poderia explorar mais esses recursos.

Infelizmente, o autor deixou uma ou outra ponta solta (que não vou contar o que é, porque será spoiler caso você queira ler). Nada que prejudique o entendimento, mas você fica se perguntando o que aconteceu com aquilo. Algumas explicações também vieram um pouco tarde. Confesso que eu já táva meio p* com um certo fato, do qual poderia haver indícios antes e poderia se confirmar posteriormente.

Acho que o Fernando tem bastante potencial para crescer como escritor. Se quiser conhecer mais sobre ele, acesse esse post aqui em que falei um pouco sobre esse lançamento e o primeiro livro dele, Bem-vindo à escuridão, de contos.

Ficha Técnica

Título: Andando Sozinho – Fernando T Moraes
Ano: 2015
Páginas: 222
ISBN: 978-85-8473-413-9
Editora: Multifoco

Nota: 7

 

Entrevista: Valéria Piassa Polizzi

O livro Depois daquela Viagem completa 20 anos em 2017. Bastante famoso entre adolescentes e jovens desde que foi lançado, é uma autobiografia de Valéria Piassa Polizzi, que descobriu em 1988, aos 18 anos de idade, que era portadora do vírus da AIDS. Numa época em que ter a doença era sinônimo de morte (a expectativa de vida de pacientes com HIV era de dez anos), ainda muito rara em mulheres, e havendo pouca informação a respeito, Valéria decidiu contar sua experiência e alertar os jovens sobre o uso da camisinha. Conversei brevemente com a Valéria, dá uma olhada!

Jéssica – Esse ano faz 20 anos do lançamento de Depois daquela Viagem. O que mudou nesse tempo em relação à educação sexual dos jovens e às informações sobre a AIDS?
Valéria Polizzi – A informação está chegando mais rápido, os jovens têm muito acesso à internet, por exemplo, e podem pesquisar o assunto que quiser. Algumas escolas implantaram a educação sexual contínua em seus currículos, o que é excelente. Mas infelizmente ainda não são todas. Há informação, todo mundo sabe como se contrai o HIV ou outra DST, mas não usam o preservativo. Parece que as pessoas deram uma relaxada na prevenção. Por isso nos últimos anos aumentou o número de jovens se infectando.
Como o HIV/aids é hoje tratada como uma doença crônica, as pessoas acham que é fácil encarar. O que gosto de deixar claro é que viver com qualquer doença crônica requer muitos cuidados, tratamento constante, medicação que gera efeitos colaterais…. Enfim, muito estresse, que se a gente puder prevenir, melhor.

J – Como você decidiu escrever esse depois-daquela-viagem-valerialivro e como foi o processo de colocar no papel todo o seu sentimento?
VP – Decidi escrever o Depois daquela viagem por causa da falta de informação e sensibilização da época. As pessoas achavam que quem tinha a doença era algum monstro. E que se infectar só aconteceria com promíscuos. Quis mostrar que podia acontecer com qualquer um e como era e pensava uma pessoa que vivia com o vírus.
Colocar tudo isso no papel me fez muito bem. Foi como uma catarse. E depois com o livro publicado pude dar palestras em diversas escolas e empresas desmistificando a AIDS. Saber que meu livro é adotado até hoje em escolas de todo Brasil e América Latina.

J – Por onde anda Valéria Polizzi e como ela vive hoje?
VP – Fiz muita coisa nesses vinte anos. Viajei o Brasil e o México dando palestras, me formei em jornalismo, fiz pós graduação, me casei, separei, morei na Europa por uns anos…
Ano passado me formei em instrutora de Mindfulness, que é uma técnica de meditação para promoção da saúde. Atualmente sou colaboradora do Centro Mente Aberta da UNIFESP, onde oferecemos programas gratuitos de Mindfulness aos usuários do SUS, a profissionais da saúde e policiais. Meu sonho, agora, é em breve oferecer também o programa a professores da rede pública de Santo Amaro, o bairro onde atendemos em São Paulo.

Papo sério!

Depois daquela Viagem veio parar nas minhas mãos porque o encontrei surrado e velhinho numa estante de troca de livros em uma padaria aqui de Floripa. Apesar de o livro falar principalmente para adolescentes, é importante a conscientização também na fase adulta, porque continua sendo absurda a quantidade de gente por aí que não usa e insiste em não usar preservativo! Doença não tem cara. É bom se prevenir, certo?

Ficha Técnica

Título: Depois Daquela Viagem – Valéria Piassa Polizzi
Ano: 1997
Páginas: 288
Editora: Ática

 

Foto de destaque:  Eduardo Enomoto – Portal R7

A Barca dos Livros pode sumir

No mês em que completa dez anos, as perspectivas não são nada otimistas para aquela que já foi considerada a Melhor Biblioteca Comunitária do País (Prêmio Vivaleitura 2014, organizado pelo MinC e pelo MEC).  Apesar dessa conquista recente e de outros tantos reconhecimentos pelo incentivo à leitura, a Barca dos Livros passa por sérias dificuldades financeiras e corre o risco de deixar de existir.

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Com dois anos de aluguel atrasado e o corte do convênio da prefeitura de Florianópolis em 2015, as contas somam mais de R$ 80 mil. O pagamento era realizado desde 2011 com apoio do Programa de Apoio às Bibliotecas Comunitárias da Fundação Franklin Cascaes. Diversas campanhas para arrecadar esse dinheiro têm sido feitas desde o ano passado, mas com a pouca adesão de novos sócios e a pequena resposta do público ao crowdfunding (uma campanha no Kickante arrecadou 8% do valor previsto), os diretores da Barca dos Livros ainda analisam se será viável manter o projeto. A expectativa é de que a prefeitura se sensibilize até a próxima assembleia dos sócios e diretores da Barca, em março, quando a equipe deve decidir sobre o futuro da biblioteca comunitária.

Trajetória

A Barca dos Livros tem uma história linda, e que não deveria ser apagada. Lançamentos de livros, exposições de arte, saraus literários, oficinas de escrita criativa, sessões de cinema e contação de histórias são algumas das atividades que ainda acontecem no espaço da Biblioteca Comunitária, localizada no LIC (Lagoa Iate Clube). A Barca dos Livros tem o maior acervo infanto-juvenil de Santa Catarina com 16 mil livros catalogados, e por lá já passaram  mais de 150 mil pessoas, em cerca de 2 mil eventos culturais.

A ideia de criar a Barca surgiu em 2005, quando a Sociedade Amantes da Leitura (criada em 2003) promoveu um passeio de barco na Lagoa da Conceição com contação de histórias e música. Em 2006, o Projeto Barca dos Livros foi aprovado pelo MinC e pôde captar recursos por meio da Lei Rouanet.

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Fotos: Divulgação/ Barca dos Livros

Entre outros prêmios, a Sociedade Amantes da Leitura (que mantém a Barca) conquistou o 2° lugar entre os Melhores Programas de Incentivo à Leitura junto a Crianças e Jovens de todo o Brasil, no Concurso FNLIJ/Petrobras, em 2006, e recebeu o título de Ação Destaque no Encontro Internacional de Bibliotecas Comunitárias de São Paulo, em 2008.

Mesmo com as dificuldades financeiras, o projeto segue incentivando a leitura. Os tradicionais passeios de barco, como aquele primeiro que inspirou a criação do projeto, ocorrem um sábado por mês e têm duração de uma hora, saindo do Trapiche da Lagoa em dois horários. Além deles, toda semana a Barca dos Livros recebe visitas de escolas no projeto Escola vai à Barca (foto). Neste mês de aniversário também há uma programação diversificada:

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Os sócios e apoiadores da Barca dos Livros fazem apelo à sociedade e às autoridades para que um dos poucos projetos de incentivo à leitura não acabe. Recentemente uma das chamadas Tripulantes, Tanira Piacentini, publicou uma carta  na tentativa de sensibilizar a comunidade. Você pode ler a carta, em pdf, clicando na imagem abaixo:

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