Entrevista: Christopher Kastensmidt

Radicado em Porto Alegre desde 2001, o estadunidense Christopher Kastensmidt começou sua carreira como escritor profissional em 2005. Em 2006, ele decidiu ambientar histórias de fantasia no Brasil, e o resultado foi a série A Bandeira do Elefante da Arara, que se passa em Salvador, no período colonial.

A primeira noveleta da saga, O Encontro Fortuito, foi publicada em abril de 2010, na revista norte-americana Realms of Fantasy, e venceu o prêmio de melhor história do ano escolhida pelos leitores. O conto também também foi finalista do Prêmio Nebula no mesmo ano.

Christopher trabalhou como desenvolvedor de games até 2009 e hoje escreve, dá aulas e  faz palestras sobre narrativas, games, letramento digital e criatividade. Ele é um dos organizadores do evento anual Odisseia de Literatura Fantástica. Suas obras já foram publicadas em 12 países e também ganharam versão em quadrinhos.

a-bandeira-do-elefante-e-da-araraRecebi um exemplar do livro A Bandeira do Elefante da Arara, que reúne dez contos da série, na minha NerdLoot e fiquei curiosa sobre a história e sobre o autor. Confere aí a nossa entrevista!

Jéssica TrombiniComo despertou seu interesse pela cultura fantástica brasileira?
Christopher Kastensmidt – No ano 2000, o meu antigo estúdio de games (a Southlogic Studios) começou um projeto ambientado na Floresta Amazônica. Para dar mais profundidade ao mundo do jogo, um dos meus sócios recomendou colocar um elemento fantástico, baseado no folclore da região. Li vários livros sobre o folclore indígena e do Brasil em geral. Fiquei fascinado com a riqueza da mitologia nacional. Nunca terminamos o projeto, mas tudo aquilo ficou na cabeça para depois.

JT- Como surgiu a ideia para a série A Bandeira do Elefante da Arara?
CK – Muitas das minhas primeiras leituras em português, quando conheci o país e comecei a estudar o idioma no final dos anos 90, foram livros de história. Quase uma década depois, em 2006, uma época em que eu estava produzindo muitos contos para o mercado norte-americano, tive a ideia de escrever uma fantasia ambientada no Brasil.
Das minhas leituras anteriores, achei o século XVI o período mais interessante para este tipo de história, uma época em que eu poderia trazer um protagonista estrangeiro para conhecer este território vasto e desconhecido. Também, é uma época com uma convergência cultural muito forte, com europeus, africanos e indígenas de dezenas de nações diferentes interagindo ao longo do litoral. Material nunca falta para acrescentar histórias novas a este mundo.

logotipo-oficial-a-bandeira-do-elefante-e-da-arara
Logotipo oficial A Bandeira do Elefante e da Arara. Ilustrador: Leonardo Amora

JT- O que representam o elefante e a arara na sua obra?
CK – A arara é o Brasil, é o Mundo Novo, é toda a magia e possibilidade infinita que o viajante podia sonhar nesta terra desconhecida no século XVI. É o país que o Gerard van Oost, o primeiro protagonista, escolhe como lar, e por isso, é a representação dele. O elefante representa a África e a importância da sua cultura na formação da cultura brasileira. Ao mesmo tempo, representa o segundo protagonista, Oludara, e seu lar, sua promessa de voltar lá algum dia. Estes dois animais figuram na primeira história da dupla, sua “história de origem”, e viram dois elementos simbólicos na bandeira das personagens.

JT- A saga deve ter uma continuação?
CK – Vai ter continuação, sim, mas não vai sair tão cedo. O primeiro livro é muito bem fechado, conta uma história completa, mas na última página dá um teaser do que vai acontecer no próximo arco. Sem dar spoilers, este segundo arco vai demorar para ser escrito, pela complexidade do ambiente. Provavelmente, vou lançando algumas histórias individuais aos poucos (como está acontecendo com estas primeiras histórias atualmente em inglês e chinês).
Porém, isso não quer dizer que não vai ter outro conteúdo durante este tempo, vai ter bastante para outras mídias. Um jogo de tabuleiro inspirado no livro vai sair até o final do ano pela Devir Livraria (a mesma editora do livro), e esperamos lançar um RPG de mesa no ano que vem. A primeira história foi adaptada para um livro em quadrinhos em 2014 (lançado também pela Devir) e eu gostaria de lançar histórias inéditas em quadrinhos em algum momento também. Tenho estou trabalhando com estúdios brasileiros com projetos para um jogo digital e um desenho animado, mas estes projetos estão na fase de captação, por enquanto.

JT – Qual a importância de criar uma literatura de fantasia com elementos da cultura nacional?
CK –  Importante é apoiar a cultura nacional, não necessariamente utilizar elementos da cultura nacional na ficção. Não importa um livro ser ambientado em Roraima, na Europa medieval ou em Marte, se o autor for nacional, a obra é uma produção cultural brasileira. Isso porque o próprio autor leva toda sua bagagem cultural, toda a sua formação, na criação da obra. O olhar é sempre nacional, seja qual for o assunto.

“Não importa um livro ser ambientado em Roraima, na Europa medieval ou em Marte, se o autor for nacional, a obra é uma produção cultural brasileira.”

Há pessoas que menosprezam a produção nacional em geral, mas acho que têm uma visão distorcida do mercado. Elas julgam esta produção contra o que vem de fora, só que o produto importado já passou por um filtro muito grande: recebemos aqui o melhor 10% do que é produzido lá fora, mas estamos expostos a 100% do que é produzido aqui. Não é uma comparação justa. Até muitos conteúdos “importados” são produzidos por artistas brasileiros. Por exemplo, temos quadrinhistas nacionais criando obras para DC e Marvel. Exportamos o talento para importar a obra. A produção cultural aqui é muito forte, mas ainda temos que desenvolver o mercado.

gerardeoludara-sulamoon
Ilustração de Gerard e Oudara, feita por Sula Moon

JT – Como tem sido a receptividade da obra no exterior e no Brasil? Elas são diferentes?
CK – A receptividade é bem diferente, e vem evoluindo ao longo do tempo. Quando comecei a escrever estas histórias, pensei primeiro no mercado estrangeiro, porque achei que o pessoal aqui podia achar “comum” demais uma fantasia com criaturas do folclore nacional. Ao mesmo tempo, ninguém fora do Brasil conhece as lendas brasileiras, nem o Saci (que é personagem importante no livro). Esta primeira aposta deu certo, porque a primeira história do mundo (O Encontro Fortuito) venceu o prêmio Realms of Fantasy e foi finalista do Nebula, um dos dois maiores prêmios de literatura especulativa do mundo. Teve um apelo muito forte para o leitor estrangeiro para fugir daquela fantasia medieval tão prevalente.
Porém, quando lancei a mesma obra aqui (em grande parte pela insistência do autor e editor Roberto de Sousa Causo), descobri que houve uma aceitação maior ainda, muito mais do que esperava.
Ao ler os meus livros, muitas pessoas me admitem que não aprenderam bastante sobre o folclore e história do próprio país. Fico muito contente com este tipo de comentário, porque faz valer os anos que gastei na pesquisa.
Engraçado é que, no exterior, o público dos livros é adulto, enquanto quem lê aqui são principalmente adolescentes. Os livros estão sendo adotados rapidamente nas escolas. Ano passado, palestrei em dezenas de escolas, para mais de 5.000 alunos, sobre o livro em quadrinhos. Lá fora, imagino que o leitor tenha que ser um pouco mais maduro para absorver toda esta cultura “estrangeira” que aqui faz parte do cotidiano.

“Ao ler os meus livros, muitas pessoas me admitem que não aprenderam bastante sobre o folclore e história do próprio país. Fico muito contente com este tipo de comentário, porque faz valer os anos que gastei na pesquisa.”

JT – A maior parte da literatura que traz personagens folclóricos é destinada a crianças. Como você se sente desbravando esse tipo de literatura para jovens e adultos?
CK – Quando tive a ideia de trabalhar com folclore brasileiro, perguntei sobre outros autores do gênero, e todo mundo me indicava apenas o Monteiro Lobato. Fiquei meio chocado de ver que a única referência era um autor que escrevia 100 anos atrás!
Mas, ao longo dos anos, descobri que não sou o único; há vários autores desbravando este território comigo. Para jovens leitores, recomendo Os Sóis da América da Simone Saueressig e O Legado Folclórico do Felipe Castilho. Para obras mais adultas, têm a Saga de Tajarê do Roberto de Sousa Causo, Cira e o Velho do Walter Tierno e Anhangá: A Fúria do Demônio de J. Modesto. Recomendo todos!

Se você quiser ainda mais detalhes sobre os livros do Christopher e a saga A Bandeira do Elefante e da Arara, acesse o site do autor 🙂

Foto de destaque por Ismael Fonseca.

Anúncios

2 comentários em “Entrevista: Christopher Kastensmidt

Deixe um comentário :)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s