Entrevista: Luciana Bertoldo

Autora do livro Baioneta Calada, Luciana Bertoldo é advogada e natural de Ijuí (RS). Reside na Grande Florianópolis há 21 anos, parte deles na capital e atualmente em Santo Amaro da Imperatriz. Escreve desde a adolescência, mas manteve e mantém muitos de seus textos guardados. Ela diz que não possui uma rotina de escrita e escreve quando as ideias surgem, muitas vezes do nada.

Em seu único livro publicado ela conta a história de seu pai, Genir Bertoldo, operário em Ijuí, que foi preso durante a ditadura militar. Ele era membro de um sindicato local para crescer como pessoa e buscar melhores oportunidades, fazendo os trabalhadores terem conhecimento das injustiças praticadas contra eles, atitudes consideradas subversivas.

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Jéssica Trombini- O que te motivou a escrever sobre a história de seu pai?
Luciana Bertoldo- Essa história nunca havia sido contada, nem mesmo dentro da nossa família. Era uma coisa que trazia lembranças muitos ruins e que já tinha causado muitos danos. Mas quando meus pais me contaram, eu me interessei e tive vontade de colocar para fora. Minha mãe não era muito favorável em conta-la, mas meu pai se interessou em contar os fatos e eu gravei tudo que ele me contou.

JT – Em que momento você decidiu que transformaria a história dele em livro?
LB- Desde o primeiro momento em que eu descobri essa história decidi colocar em livro, mas não sabia como, pois não era profissional dessa área. Procurei editoras e fiz um livro independente. Também foi de uma maneira despretensiosa que o publiquei, queria apenas registrar, pois nem mesmo em Ijuí as pessoas a conheciam. Era uma história esquecida.

Nota: alguns colégios da região de Ijuí incluíram Baioneta Calada entre as obras obrigatórias aos alunos de Ensino Médio, para falar sobre a Ditadura Militar. Luciana já deu palestras sobre o livro nesses locais e em feiras literárias no Rio Grande do Sul.
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Foto: Acervo pessoal da escritora

JT- Por que é importante relatar as situações pelas quais passaram presos políticos durante a ditadura?
LB – Os presos políticos da época tiveram todo o caminho de uma vida afetada. O que aconteceu com meu pai afetou a família toda, muito convívio conosco foi evitado e muitas portas se fecharam. Ser comunista era uma coisa muito negativa. Mas na verdade não era isso, meu pai era operário e lutava por seus diretos, que só depois de muito tempo foram conquistados. A ditadura foi avassaladora e transformou a vida de todos que se envolveram nela e com ela. Ter escrito esse livro ajudou meu pai a se fortalecer e valorizar sua história, ter orgulho dela. Hoje ele diz que não faria nada diferente.

 

JT – Você pretende publicar outras obras?
LB – Sim, já estou com um bom material de crônicas, mas com um rumo totalmente diferente do primeiro livro. Esses textos são mais voltados às questões femininas e relações afetivas.

Poetas Livres lançam dois concursos de poesia

O Grupo de Poetas Livres (GPL), de Florianópolis, lançou dois concursos de poemas, abertos a qualquer pessoa que deseje participar. As inscrições estão abertas até o dia 30 de setembro para as duas edições: Sueli Bittencourt (a 11ª), com o tema Paz, e Julio de Queiroz (12ª), com temática livre.

“Nossos concursos ao longo dos anos têm recebido nomes de poetas do nosso grupo com o objetivo de homenageá-los. Este ano estamos lançando dois concursos, um homenageando a poeta, membro do Grupo de Poetas Livres, Sueli Bittencourt,  que este ano completa 96 anos. O outro concurso leva o nome de Julio de Queiroz, escritor e poeta membro correspondente do Grupo, falecido no último mês de maio”, explica a presidente do Grupo de Poetas Livres, Eloah Westphalen.

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À esquerda, Revista Ventos do Sul, onde serão publicados os poemas dos três primeiros colocados de cada concurso (Foto: Jéssica Trombini – Literatismos)

Os candidatos podem concorrer nas duas edições, enviando os trabalhos separadamente. Podem ser inscritas até três poesias em cada concurso. As inscrições são exclusivamente online, pelo e-mail eloahwn@hotmail.com.

Os três primeiros colocados em cada concurso receberão troféu e certificado, e seus poemas serão divulgados na revista semestral do grupo, Ventos do Sul. Os outros participantes receberão certificados, que serão enviados online. A premiação acontecerá no dia 24 de novembro, durante a sessão de encerramento do Ano Acadêmico, no Auditório Abelardo Sousa, da Biblioteca Prof. Francisco Barreiros Filho (Estreito). Para mais detalhes, consulte o edital.

 

 

 

Entrevista: L.L. Alves

L.L. Alves é o nome artístico de Luene Langhammer Alves, natural de Itajaí e residente de Florianópolis. Ela é formada em Letras – Língua e Literatura Inglesa pela Universidade Federal de Santa Catarina e escreve desde os 13 anos de idade, quando seu primeiro romance, Mudanças, foi concluído – o livro só foi publicado em 2014, na Bienal de São Paulo, mas outros projetos já estavam em andamento. Com essa idade ela decidiu que escrever era o que queria fazer para o resto da vida.

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A escritora catarinense L.L. ALves com seus livros (Foto: acervo pessoal da escritora)

Em 2010 ficou deslumbrada com a ideia de uma saga e, a partir de um sonho, criou Instituição para Jovens Prodígios, uma série de quatro volumes que atualmente está sendo publicada no formato digital na Amazon. Desses, os três primeiros (A Seleção, A Traição e A Revelação) já estão disponíveis na plataforma, e o último, A Rebelião, está sendo trabalhado pela autora. Os três volumes foram sucessos de vendas na Amazon e ficaram vários dias no TOP 10 de best sellers da Revista Veja. O primeiro título da saga está em pré-venda em formato físico pela editora Essência Literária. 

Procurando aumentar seu estilo de escrita, L.L. Alves começou a escrever contos em 2014, do sobrenatural ao erótico. De um conto despretensioso chamado Desejo surgiram As GRANDES Aventuras de Daniella. Sempre lidando com temas delicados e que tiram o leitor de sua zona de conforto, publicou seu primeiro new adult que fala sobre depressão e suicídio, Sebo Fernandes, na Amazon, depois do sucesso na plataforma Wattpad.

L.L. Alves participará de um encontro literário, com bate papo e sessão de autógrafos na Livraria Nobel do Shopping Itaguaçu no dia 30 de julho, às 18h. Confira agora a entrevista que fiz com a escritora 🙂

Jéssica Trombini- Seu livro Mudanças foi concluído quando você tinha apenas 13 anos. Como você começou a escrevê-lo e qual foi sentimento ao concluí-lo? 
L.L. Alves – Primeiramente, muito obrigada pelo convite ♥ Comecei a escrever no momento em que conheci a série Harry Potter e fiquei fascinada pela leitura, por volta dos 11 anos. Aos poucos fui colocando na cabeça a ideia de ser escritora, de escrever meus primeiros textos. Foi um processo difícil, pois eu ainda não tinha achado meu estilo, porém continuei tentando. Escrevi vários rascunhos que acabei descartando por achar que estavam horríveis, até decidir que terminaria um livro, caso contrário, poderia desistir da ideia. Foi aí que surgiu Mudanças, um romance focado na adolescência, nos desafios e novidades que experimentava na época.
 
JT- Mudanças foi publicado em 2014. Por que a “demora” em publicá-lo?
LL- Mudanças foi publicado apenas em 2014, especialmente porque até aquele momento eu não achava que ele estava pronto, além da dificuldade em compreender o mercado literário atual.
JT – Quais são os desafios para jovens autores publicarem no Brasil?
LL – Os desafios são muitos, não mentirei. Desde a falta de apoio de editoras e livrarias, quando você é um desconhecido, à luta diária de divulgação para que os leitores deem uma chance para a sua obra. O mercado editorial ainda tem muito a crescer e a se desenvolver para ser capaz de investir de verdade no autor nacional. Confesso que a situação está mudando, mas ainda falta um longo caminho para que a profissão de escritor seja respeitada e reconhecida.

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Algumas obras da autora L.L. Alves (Imagem: reprodução site)

JT – Qual a sensação de poder publicar a saga Instituição para Jovens Prodígios no formato físico? E qual o apoio na plataforma da Amazon para que ele se se tornasse conhecido por meio do e-book? 

LL – É quase indescritível. Uma mistura de alívio com emoção. A gente batalha tanto, trabalhando de madrugada e se dando o máximo pelos nossos livros, que é maravilhoso quando eles são reconhecidos e têm a possibilidade de estar nas mãos dos leitores. A Amazon foi uma grande ajuda durante um período delicado da minha carreira. Foi a minha única solução quando o restante do mercado fechou as portas para mim. O que recebemos na plataforma ainda é pouco, mas já é uma opção para quem não tem condição de investir em editoras ou em edições físicas de forma independente. Através da Amazon e de uma divulgação sem fim, tanto minha quanto de blogs parceiros e amigos, muitos leitores conheceram a série e hoje terão a oportunidade de tê-la em suas estantes. É mágico ♥
 
JT – O conteúdo de seus livros remete a um público juvenil. Por que esse direcionamento nas suas obras?
LL – Acredito que todo escritor escreve aquilo que gostaria de ler. Porém, além disso, escrevo o que sinto a necessidade de discutir e debater de forma lúdica. Meus livros em sua maioria remetem ao público juvenil, mas não somente a ele. Escrevi As Grandes Aventuras de Daniella, por exemplo, um chick-lit que fala sobre autoestima e padrões impostos pela sociedade. Sempre busco criar histórias que emocionem, divirtam e que façam meus leitores pensarem, focando em um gênero. Em Mudanças falo sobre a adolescência, a série Jovens Prodígios discute sobre família e amizade, e assim por diante. O importante é ensinar algo para quem irá ler.
 
Se quiser conhecer mais sobre a escritora L.L. Alves e seus livros, você pode visitar o site dela neste link.

Nascidos para perder

A intenção do autor Mylton Severiano com esse livro era provar a tese de que o jornal O Estado de São Paulo sempre apoiou candidatos que perderam eleições presidenciais, o que demonstraria que a publicação e seus donos sempre estiveram contra o povo. Sendo um jornal bastante conservador (como grande parte da mídia brasileira), não é de se esperar algo muito diferente.

Além da teoria levantada, esse livro conta muitos outros “podres” de bastidores do Estadão, como duas negociações duvidosas com o governo quando o jornal estava cheio de dívidas.  Uma delas foi em 1942, quando o jornal foi vendido ao governo do estado da SP por um valor muito superior ao que realmente valia, e a outra em 1980, quando o governo vendeu o jornal novamente à família Mesquita. Nessa parte, inclusive, o autor reproduziu na íntegra as duas escrituras públicas, ocupando bem umas dez páginas…

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Em alguns momentos fiquei achando que era um ataque gratuito à família Mesquita, dona do jornal, pois há vocabulário ofensivo e insinuações problemáticas. Alguns causos contados também não têm nada a ver com a tese, como o urubu que entrou na redação,  a biografia de Machado de Assis que perdeu o Prêmio Jabuti por suas inconsistências (do jornalista de Cultura Daniel Piza) e a cobertura de um assalto a banco que o editor já sabia que iria acontecer.

Nascidos para perder tinha tudo para ser um livro interessantíssimo e de uma riqueza de informações muito grande, porém acho que o autor não conseguiu organizar o conteúdo. Eu tenho a impressão de que ficaria muito melhor se ele contasse os fatos em ordem cronológica, mas, assim como no Realidade: a história da revista que virou lenda, ele contou de acordo com seu fluxo de memórias. Em vários momentos ele conta sobre 1940, pula para 1970, e volta para 1940. Isso torna o livro confuso.

20160723_132648É claro que o livro tem seus méritos, reproduções de entrevistas interessantes, a sustentação da tese em detalhes em quase todos os casos, e a parte sobre ter perdido espaço para a Folha de São Paulo.

Detalhe

Eu comecei a ler logo que foi lançado, mas abandonei nos primeiros capítulos porque achei maçante. Ficou lá na prateleira todo esse tempo, até que fiz uma entrevista com o autor para o meu TCC em 2014 e levei meu exemplar para que ele autografasse. Ainda ficou lá mais dois anos, até que resolvi dar outra chance. Mas dessa vez fui até o final.

Nota: 5.

Ficha: Nascidos para perderMylton Severiano
Editora Insular
Ano: 2012
279 páginas

A Divina Comédia

A Divina Comédia, de Dante Alighieri, deve ser um dos livros mais lidos do mundo, já que está aí desde meados do século XVI – alguns dados indicam 1321. Se para nós reles mortais já é difícil ler um livro mais antigo no nosso próprio idioma materno, imagine a tradução de um poema épico que tem quase 700 anos?

A Divina Comédia
A Divina Comédia, de Dante Alighieri – Box da Editora 34

O livro é na verdade uma trilogia: Inferno, Purgatório e Paraíso. O escritor Dante é o protagonista da obra e visita os três. O livro é escrito durante o exílio de Dante e começa justamente com nosso autor-personagem perdido em uma floresta. Ele encontra o poeta Virgílio (autor da Eneida), que será seu guia – lembremos que nas obras do Renascimento existe esse culto aos clássicos.

A Divina Comédia é basicamente uma crítica social baseada na moral cristã. Em sua viagem, Dante encontra muitas figuras de sua época e anteriores a ela sofrendo as consequências dos atos que praticaram durante suas vidas, tanto membros da Igreja Católica quanto reis, príncipes, e outras figuras históricas. Por causa disso, a leitura não é nada fácil. É cheia de notas de rodapé para explicar cada nome que aparece na narrativa e as referências a batalhas e disputas políticas. A partir de um certo círculo do Purgatório, Virgílio não pode mais guiar Dante, por ser pagão. Quem o substitui na tarefa é a amada de Dante e sua musa inspiradora, Beatriz.

Círculos

Tanto o Inferno, quanto o Purgatório e o Paraíso são construídos em círculos concêntricos. Os nove círculos do Inferno descem até o núcleo da Terra, e os castigos recebidos são piores quanto mais fundo o círculo. Os sete círculos do Purgatório estão em uma alta montanha na própria Terra, que surge no mar no hemisfério austral (sul). Subindo estes círculos chega-se aos nove círculos do Paraíso, ou céus, depois ao Empíreo, à Rosa dos Beatos e aos Nove Círculos Angélicos.

Estrutura do poema

Cada livro possui 33 cantos – o Inferno possui 34 – com mais de cem versos cada. O esquema de rimas é a terza rima: ABA BCB CDC, etc. Nessa edição, o tradutor procurou manter o esquema de rimas do poema original, o que merece um crédito enorme, pois levou 15 anos pra ser feito. O tradutor Italo Eugenio Mauro recebeu em 2000 o Prêmio Jabuti de Tradução por esse trabalho, publicado inicialmente em 1998.

Minha edição é bilíngue, italiano-português. Não sei se todas são. Estudei italiano por alguns anos, então arrisquei dar umas espiadas no texto original. Alguns trechos eram fáceis de entender, outros totalmente incompreensíveis, com palavras escritas de maneira diferente, e outras construções que hoje não são usadas…

Dante foi o primeiro a escrever em italiano, já que as obras até então eram escritas todas em latim. O italiano era considerado vulgar e inculto. Esse idioma era o dialeto florentino (de Florença), que se tornou o padrão e é o mais aproximado do italiano atual.

Como consegui

Bom, foi daquelas vezes em que bati o olho no box na livraria e tive que levar. O único problema foi que ele ficou alguns anos na minha prateleira esperando ser lido. E, claro, eu deveria ter feito isso antes.

Nota: 8, pela trabalheira e por ter sobrevivido tanto tempo

Ficha:
A Divina Comédia
– Dante Alighieri
Editora 34
Ano: 2010 (2a edição)
Páginas: 690