Realidade, história da revista que virou lenda

O livro traz a história da revista Realidade em seus dois primeiros anos de circulação: da criação, em 1966, à demissão de seu primeiro editor-chefe, Paulo Patarra, em 1968. Esse fato levou à “autodemissão coletiva” dos integrantes da primeira redação da revista. Na capa do número 33, o último da primeira turma e que encerrou a considerada melhor fase da publicação, aparecia Luís Carlos Prestes, mesmo já tendo sido decretado o AI-5, o que era uma verdadeira afronta ao governo militar.

realidade história da revista que virou lendaA revista circulou ainda até 1976, em clara decadência após os dois primeiros anos. O autor Mylton Severiano (conhecido como Myltainho), fez parte dessa turma de “malucos de esquerda” e “loucos de 64”, na denominação que ele mesmo faz em diversas partes do livro.

Em plena ditadura militar, Realidade tratava de temas tabus e de política, bancados pela Abril, que até 1968 não fazia tanta pressão sobre os editores, já que as vendas eram exorbitantes (beirando os 500 mil exemplares) e a censura ainda era branda, de certa forma (ou era burlada com êxito). Em 1968, a existência de Realidade levou à criação da revista de direita, a Veja, pelo mesmo Roberto Civita. O cerco começou a apertar com capas com Fidel Castro e Che Guevara.

Myltainho colheu diversos depoimentos de quem fez e viveu a revista, e é unanimidade entre os entrevistados que a maneira com que Realidade abordava os fatos era diferente de qualquer outro modo que poderia existir. As reportagens tinham profundidade e ao mesmo tempo eram humanistas.

O livro traz bastidores da redação, narração de brigas, intrigas e fatos engraçados. O mais curioso e incrível deles está no seguinte trecho:

“Dizem analistas que a gente imitava o new journalism. Trabalhei do lado do Serjão e do Paulinho e nunca ouvi falar. A gente inventou uma fórmula nossa, não?”

Para jornalistas e estudantes da área, é interessante saber que a fórmula do que chamamos de Novo Jornalismo era praticada sem talvez sofrer influência direta da mídia estrangeira. Uma hipótese é que a época pedia isso, como se fosse um inconsciente coletivo. Até porque, demoraria muito mais tempo para que o método chegasse aqui e fosse estudado e praticado, como acontece com muitas coisas hoje relacionadas ao jornalismo, e das quais tomamos conhecimento quase que instantaneamente.

O senão do livro é que todo esse período é narrado em fluxo de consciência, tornando a leitura confusa, pois ele vai e volta no mesmo tema ou na mesma edição da revista várias vezes. Acredito que em ordem cronológica ficaria muito melhor, até para o leitor se situar e acompanhar o período.

20150816_121931

Diversas vezes também o autor fala brevemente sobre um assunto e explica “veremos adiante”, ou “como será visto no capítulo x”, quando poderia já eliminar o tópico rapidamente. Ele também se demora na transcrição de conteúdos da revista, como índices, que acabam sendo um pouco inúteis. Os primeiros números da revista tomam bastante espaço dentro do livro. Ao relatar o final, a impressão é de que ele “correu” e falou pouco desse fim, ou se demorou demais no restante.

Como consegui:  fiz uma entrevista com o autor, e ele me deu um exemplar de presente. Myltainho foi uma das principais fontes para o meu TCC em Jornalismo, uma reportagem sobre ghost writers (que não tinha nada a ver com o assunto do livro que ele me deu). O autor faleceu um mês da nossa conversa, que além de me revelar muito sobre a profissão de ghost writer, foi uma pequena aula de jornalismo.

Nota: 7

Ficha
Realidade, história da revista que virou lenda
Autor: Mylton Severiano
Ano:2013
Editora: Insular

O Atlas da Terra-Média

O Atlas da Terra-Média não é apenas uma mera obra de referência. Considero que é fundamental para a leitura do Silmarillion. E por quê? Todo mundo diz que o Silmarillion é complicado e confuso, e na verdade antes de lê-lo eu me apavorei por ver que 90% das pessoas diziam/dizem isso. Esse livro facilitou infinitamente a minha leitura, porque ali é possível visualizar e entender as mudanças que ocorreram em Arda ao longo das Eras.

Em diversas partes, Karen Fonstad desenvolve seus mapas em paralelo a um resumo das ações dos personagens (os mapas de guerras e migrações são realmente fantásticos). Isso traz clareza à narrativa, principalmente quanto às alterações ao longo das Eras, como o afundamento de Beleriand e o afastamento de Valinor da Terra-Média.

Essas mudanças nem sempre são perceptíveis aos leitores, e aliás, a maioria usa um mapa completamente anacrônico, que abrange todas as Eras.

Mapa errado de Arda. Reparem que Númenor (2a Era), as Lâmpadas dos Valar (Dias Antigos), Beleriand (Primeira Era) e Mordor (3a Era) NÃO PODEM existir ao mesmo tempo. NUNCA, jamais, usem esse mapa. Tolkien rola em seu túmulo cada vez que alguém o consulta.
Mapa errado de Arda. Reparem que Númenor (2a Era), as Lâmpadas dos Valar (Dias Antigos), Beleriand (Primeira Era) e Mordor (3a Era) NÃO PODEM existir ao mesmo tempo. NUNCA, jamais, usem esse mapa. Tolkien rola em seu túmulo cada vez que alguém o consulta.

Arda passou por mudanças profundas que marcam o fim de uma Era e o início de outra, e pra mim é quase uma heresia desrespeitar isso ou simplesmente ignorar. Até mesmo os fatores sobrenaturais são levados em conta nas alterações, a fim de preservar o que Tolkien chama de “consistência interna da realidade”.

A maestria com que Karen Fonstad capta as indicações de relevo, vegetação e clima dispersos nas principais obras de Tolkien mostra seu olhar diferenciado em relação ao de um fã leigo em assunto de geografia, e abre o nosso olhar para percebê-los também.

Esses elementos não aparecem na obra por mero capricho de Tolkien ou enfeite, já que influenciam diretamente no desenrolar de suas histórias: na lentidão ou rapidez com que os personagens atravessam a Terra-Média em suas aventuras, além da presença, em determinados locais, das várias raças, culturas e idiomas que formam sua obra. Foram justamente essas dicas que possibilitaram a análise do ambiente em que ele inseria seus personagens, e mostram que Tolkien também tinha algum (ou muito) conhecimento de geografia.

Karen Wynn Fonstad era cartógrafa e publicou a primeira edição do Atlas da Terra-Média em 1981. Na época ainda não tinha sido lançado a History of Middle Earth para que ela pudesse usar de parâmetro: Karen usou somente os mapas de Tolkien e seus escritos. Depois, em 1991, ela lançou uma edição revisada, aí sim com base na HoME até o volume IX (ao todo são 12 volumes, e não foram publicados no Brasil até o momento).

Nude do livro :)
Nude do livro, com mapa da Primeira Era 🙂

Duvido que houvesse muita incoerência com a HoME, já que até o chato Christopher Tolkien deu créditos à autora quando ela percebeu uma inconsistência geográfica entre O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Ela ficou conhecida como especialista por criar atlas de mundos de fantasia, como dos Cavaleiros de Pern, Dragonlance e Forgotten Healms.

Como consegui:  entrei numa livraria e dei de cara com ele. Eu não sabia que esse atlas existia, mas fiquei de queixo caído quando folheei e vi os mapas. Dentro da livraria mesmo eu fiz uma pesquisa rápida no smartphone para saber se valia a pena e era confiável, descobri que sim, peguei e levei. Não resisti.

Nota: 10

Ficha: O Atlas da Terra-Média – Karen Wynn Fonstad
Tradução: Ronald Kyrmse
Editora: Martins Fontes
2a edição – 2013
Tamanho: 23 cm x 27cm (sim, ele é grande!)