Resenha: O Silêncio do Olhar

Terceiro livro da autora catarinense Katia Rebello que leio, O Silêncio do Olhar foi um dos poucos neste ano que consegui ler de uma sentada (deve ter sido o único…). A escrita da Katia é fluida e gostosa de ler, simples, sem firulas, e mesmo assim prende o leitor. Lançado pela editora Papa-Livro em 2011, a produção foi a parte prática da tese de doutorado da Katia em Literatura na UFSC, em 2007. No trabalho teórico ela conta passo a passo do processo de produção de um romance, e o produto final foi esse livro. Divino, né?

O Silêncio do Olhar conta a história de Anita, ou Pipa, apelido dado pelo namorado Fábio. Anita é vendedora de perfumes franceses, Fábio é poeta, ou ao menos almeja ser. Ela não entende por que seu namorado, com quem está há mais de um ano, tem tanta dificuldade em declarar seus sentimentos por ela, mesmo que ela insista. Anita tem ciúmes da Poesia de Fábio, essa amante a quem ele se abre e conta todos os seus sentimentos.

IMG_20170830_102419177~2Fábio se corresponde com Solano, poeta já consagrado, e envia a ele seus poemas, pois ele poderia intermediar seu contato com editores para publicar os textos. Anita não se conforma em como ele é capaz de enviar as poesias a um estranho, mas não consegue mostrá-las a ela, que supostamente é o assunto de tais poemas! Furiosa e curiosa, ela decide tirar uns dias de férias e ir atrás do poeta Solano.

Katia traz uma reflexão interessante sobre o modo como imaginamos profissionais de certas áreas… como é um poeta? Como ele se comporta? São todos iguais? Fábio parece um poeta saído do Romantismo: ele sofre, é apático, pálido, taciturno, solitário. Já Solano…

“Na aparência, ninguém adivinharia que era poeta. Alguém suspeitaria que eu vendia perfumes, só de olhar? Somos o que fazemos e blá blá blá… mas precisamos nos parecer com nosso ofício?”

Solano fazia piadas, era alegre, bronzeado, rodeado de amigos, vivia na praia e se misturava aos pescadores. A maior parte do romance se desenrola na vila à beira-mar onde mora Solano e na Pousada onde Anita se hospeda, por isso a foto de capa de uma praia e suas ondas.

O livro é narrado pela Própria Anita, em primeira pessoa. O tom é bastante coloquial, o que torna a narrativa natural, com construções de pensamento que qualquer pessoa comum poderia ter. Com essa transparência temos acesso às sensações, dúvidas, raivas, receios da protagonista, como se ela fosse “gente como a gente”.

“Não comparamos como os homens agem, comparamos como eles nos tratam. Todos querem sentir prazer, nem todos o querem dar.”

Anita descobre que as palavras têm poder, mas o silêncio também o tem. E que um olhar pode dizer muito mais do que qualquer palavra pode expressar.

Gostou? Fique atento, vai ter sorteio de um exemplar autografado pela autora 😀

Se quiser conhecer outro título publicado pela Katia, aqui tem a resenha do Até que a Morte os Separe, lançado em 2016.

Título: O Silêncio do Olhar
Autora: Katia Rebello
Ano: 2011
Páginas: 178

Nota: 10

 

Autores independentes na FLIP

Seu Paulo Cavalcante saiu lá de Campina Grande, na Paraíba, para expor na Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Ele participa do evento há 13 anos, mas nunca foi como convidado. Ele sabe que a FLIP é uma vitrine, e que o público das estrelas convidadas é o mesmo que o seu: leitores. “Quem se propõe a estar na literatura, tem que estar na FLIP. Por isso que tem centenas de nós na pipoca”, comenta rindo.

paulo cavalcante

Seu Paulo estava todos os dias da Feira debaixo de sol, vestindo acessórios que remetem ao sertão nordestino, tema de seus três livros publicados. Martírio dos viventes foi seu primeiro livro e já está na sexta edição, todas pela Editora da UFPB (Universidade Federal da Paraíba). Sujeito simples, não tirou o sorriso do rosto nem um minuto durante nossa conversa, mesmo passando cinco dias inteiros em pé sobre dois tocos de madeira que o faziam sobressair à multidão. Pelo jeito a persistência valeu a pena, conseguiu vender todos os 150 exemplares que levou a Paraty de Um Andarilho em Busca de Cultura (de 2016, o mais recente). Seu outro título é Como se fosse um paraíso, de 2012.

O romance realista Martírio dos Viventes fala sobre a seca de 1992 na região de Garanhuns, cidade natal de Paulo, e conta a resistência e a exclusão social de uma família que tem 12 filhos. O texto é acompanhado de ilustrações feitas pelo próprio autor. É praticamente um livro paradidático, que podemos comparar com Vidas Secas, do genial Graciliano Ramos. Restavam uns 30 exemplares com o autor ao final da feira.

Mulheres em Cena

lara braga - mulheres em cenaAs irmãs Nara Tosta e Lara Braga (foto) vieram da capital do Rio de Janeiro para expor seu projeto Mulheres em cena. Nara escreve contos, Lara é poeta, e ambas falam de questões da mulher.

Lara conta que elas decidiram escrever quando chegaram à famosa crise de meia idade. “A gente já tinha feito várias coisas na vida e não se encontrava. Eu tive um filho que teve câncer, e nesse processo a gente ficou muito recolhido. Depois dessas viagens internas, aos poucos eu minha irmã fomos descobrindo o que temos como essência para colocar pra fora”, conta a autora.

Elas escrevem há mais ou menos cinco anos e têm prontos diversos textos. A ideia de Nara é publicar cinco livros, com dois contos em cada. Detalhe: todos os títulos são nomes femininos e contam as histórias das protagonistas que dão nome aos textos. Lara deve publicar mais quatro livros de poesia, fechando a coleção, com dez volumes. Os dois primeiros livros do projeto Mulheres em cena haviam acabado de sair do forno e já ganhavam as ruas de Paraty nas cestinhas das bicicletas que Lara e a filha de Nara levavam.

 

Catarinense marca presença

Como não poderia deixar de ser, Santa Catarina também teve uma representante entre os escritores independentes. A advogada Luciana Bertoldo, autora do livro Baioneta Calada, esteve na FLIP divulgando seu livro. Ela conta que visitou escolas da região, num “trabalho de formiguinha” para falar da obra que tem sido utilizada por colégios do Rio Grande do Sul para apoiar os estudos sobre o período da Ditadura Militar. luciana bertoldo flip 2

No livro, Luciana conta a história de seu pai, que foi preso durante o período da Ditadura, e fala sobre como isso afetou toda a família. O simples fato de ser operário e lutar por direitos trouxe a ele o estigma de “preso político” e “comunista”. O convívio com a sociedade foi bastante afetado, não apenas de seu pai, mas de todos, que sofreram perseguições por anos a fio, além da exclusão.

Escritores independentes têm essa proximidade carinhosa com o público. Algumas das estrelas da FLIP e de outras feiras também têm, outras não têm. Manter a humildade e o carisma com os leitores, atender bem o público, pelo menos pra mim, são fatores importantes. 😉

FLIP 2017 – Explorando o terreno e abertura

Ontem, dia 26 de julho, foi o primeiro dia da 15a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). A abertura oficial aconteceu às 19h, mas durante todo o dia os leitores e turistas já puderam curtir exposições, a programação das Casas e feiras de livros.

O cenário da FLIP é o Centro Histórico de Paraty, e o palco principal é a Igreja Matriz, onde foi montado um auditório com acesso somente a público pagante. No entanto, as mesas deste auditório serão transmitidas em telão no auditório montado na Praça da Matriz, que tem acesso gratuito.

Sete Casas parceiras da FLIP oferecem palestras, mesas-redondas e oficinas durante os cinco dias de evento, numa programação paralela à principal.

Museu da Língua Portuguesa

Confesso que me emocionei com a exposição voltada à reconstrução do Museu da Língua Portuguesa (de São Paulo), que sofreu um incêndio em 2015 e está desativado para reforma. A Casa de Cultura traz uma “réplica” da Praça da Língua, um dos setores que eu mais gostava no Museu: com projeções de trechos de poemas famosos da Língua Portuguesa, música, imagens. Além da Praça, uma exposição fotográfica mostra as etapas da reforma do Museu.

 

Praça da Matriz

Na área da Igreja Matriz tem a tenda da Central Flipinha, voltada para o público infantil. Lá devem acontecer cortejos literários, contação de histórias e bate-papo com autores. Ao ar livre foram colocados tapetes enormes com almofadas, perto dos “pés de livro”, árvores com livros pendurados para apreciação do público.

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Abertura

FLIP 2017 dia 1 (22)
Auditório da Praça lotado para assistir a sessão de abertura no telão. Na tela, Lilia Schwarcz.

O escritor homenageado nesta edição da FLIP é o Lima Barreto (1881-1922), e a sessão de abertura foi comandada pela historiadora Lilia Schwarcz, que acaba de lançar uma biografia do autor, Lima Barreto: triste visionário. O ator e escritor Lázaro Ramos (homão da porra!) fez uma leitura dramática de cartas e memórias de Lima Barreto. Ele lança nesta FLIP seu livro Na minha pele, com memórias em torno do racismo.

 

Nada é perfeito

A primeira coisa que senti falta: resposta no pedido de credenciamento. Sim, eu tentei e não tive resposta. Também não há uma central de informações e o staff da FLIP não necessariamente sabe passar informações corretas sobre programação e locais.

Tem poucas livrarias, e os preços são normais, se não mais salgados do que no mercado convencional. A chance de eu não levar absolutamente nada é bem grande. E, por último… cadê marcadores gratuitos? Ou pra vender? Não vi. Vem um marcador da FLIP no livreto da programação, mas só. A FLIP 2017 vai até domingo, dia 30.

 

Academia de Letras de Palhoça lança concurso de poesia

Até o dia 31 de agosto internautas de todo o Brasil podem enviar trabalhos de até 20 linhas para o concurso Veredas da Poesia 2017, lançado pela Academia de Letras de Palhoça. Estão abertas duas categorias: uma até 15 anos de idade, com os temas “Bulling na escola”, “Esportes” e “A leitura”. Para os demais participantes, acima desta faixa etária, os temas são “Guerras”, “Preconceitos” e “Eu e a Internet”. Este é o 5º ano que a ALP realiza o concurso.

academia letras palhoca logo

Cada participante pode se inscrever com duas poesias, que devem ser enviadas para o e-mail sueniapoeta@gmail.com. Além dos trabalhos, é necessário informar nome completo, filiação, data de nascimento, endereço (rua, número e cidade), telefone e e-mail, e anexar cópia do RG e comprovante de residência. As poesias deverão ser inéditas e contar com título e autoria.

Serão premiados três poemas em cada categoria. Os primeiros colocados receberão troféus e obras literárias, e os segundos e terceiros receberão medalhas e obras. Todos os ganhadores vão receber certificado da Academia de Letras de Palhoça e terão suas poesias divulgadas no site da ALP, que poderão ser inclusas no boletim informativo Flor de Lis, publicado anualmente pela instituição.

Heralda Victor lança romance biográfico

A escritora Heralda Victor, natural de Araranguá, lança no dia 12 de julho o livro O barbeiro do Salão Alvorada, romance biográfico sobre o barbeiro Seu Paulo. O lançamento será nas Livrarias Catarinense, no Beiramar Shopping, em Florianópolis, a partir das 19h.

heralda victor 2017

O Barbeiro do Salão Alvorada – História de uma vida sem férias conta a trajetória de um modesto barbeiro de uma cidade do interior, que de barba em barba edificou sua história de vida e a de tantos outros.  Seu Paulo é o elegante e cordial barbeiro do Salão Alvorada, que ao redor de sua cadeira de barbeiro viu passar todos os sábados ensolarados de sua vida, até que uma doença interrompeu as suas atividades profissionais.

Heralda Victor reside em Florianópolis desde 1999 e já publicou quatro obras, todas em verso. Este é o primeiro romance que publica, e já há outros três livros em produção: uma biografia, um livro de crônicas e contos, e um dedicado ao público infantil. Neste ano ela foi escolhida entre as melhores contistas infantis no Prêmio Literarte – o prêmio será entregue no dia 15 de julho.